quinta-feira, 10 de abril de 2014

Não somos vistos ou não nos querem ver?

Foi na entrevista que dei para o portal IG (para ler na íntegra, clique aqui) que a jornalista me perguntou qual o papel das mulheres no mercado de HQ, e a minha resposta reflete justamente o que penso: "...não sei se as pessoas fingem que não estão vendo ou realmente não as percebem.”

E não é algo que se restringe à mulher no mercado de quadrinhos, apesar de ter um número menor se comparado aos homens, mas sempre que olho pros lados, percebo: Nomes que são repetidos até não acabar mais, para representar uma "categoria"(artistas independentes, artistas emergentes) que está crescendo cada vez mais e não tem espaço e, principalmente, não tem visibilidade.

Outro exemplo que cabe muito bem é sobre os prêmios HQMix, que toda vez que sai a lista de indicados, vejo sempre os mesmos nomes, todo ano. Não é possível que só exista um grupo restrito de pessoas produzindo. Não estou julgando, só queria entender. E também não quer dizer que outros nomes não apareçam, porque aparecem sim, mas a pergunta que não quer calar é: qual o critério?

Desde o começo eu soube que esse mercado, assim como os mercados de ilustração, artes, etc, são uma pequena grande panelinha. E ninguém quer dividir o bolo. Isso é normal, panelinha a gente vê desde a escola. Só fico indignada pela falta de interesse, seja da mídia, seja das iniciativas culturais, pelas pessoas que não fazem parte da panelinha, mas que são tão talentosas quanto. Quando às vezes penso em desistir dos quadrinhos, imagino também quanta gente não desistiu porque não via mais esperança, ou o retorno esperado?

Talvez seja recalque. Mas eu já fui muito longe -  meus amigos e fãs às vezes precisam me lembrar disso - para ficar aqui estancada. Alguns nomes são uma grande inspiração e cada um deles merece todo o reconhecimento que vêm tendo quando há um tempo atrás não havia espaço algum. Mas precisamos evoluir, e não ficar repetindo velhas fórmulas. Precisamos ir mais longe. Precisamos nos tornar um grupo que não quer apenas dividir em pedaços ainda menores o bolo que já existe, mas que queira construir um bolo cada vez maior.

Talvez eu seja apenas uma idealista, talvez esteja vendo apenas o lado vazio do copo. Mas eu fico chateada sempre que entro numa loja de quadrinhos e vejo que 90% do que é exposto é estrangeiro e que o material nacional está sempre escondido pelos cantos. E nem preciso dizer que quase nada chega nas grandes livrarias que não tenha um investimento maciço por parte das editoras e distribuidoras. E não adianta achar que a culpa é só deles, porque infelizmente eles só investem no que vende. E o que não vende, não vende por quê? O preconceito também é nosso, e está vinculado a um ciclo vicioso de descrença, desvalorização, e num geral, à fraca cultura de leitura de quadrinhos no país.

Mas a mídia de massa dificilmente vê interesse no que acontece no "underground", e até mesmo as mídias mais especializadas (com exceções, é claro!) acabam por repetirem muitas das informações que aparecem por aí. Ou seja, não existe nada de novo que chega ao "leitor comum", que acaba alheio aos acontecimentos. É preciso destrinchar um pouco a internet para achar coisas relevantes e legais que estão rolando por aí. Mas isso quer dizer ter interesse o suficiente para ir além (o que tem todo mundo tem).

O underground já está deixando de ser tão underground e temos nomes que estão rolando por aí, mesmo que nada tenha o peso de um Mauricio de Sousa, claro. Mas será que algum dia teremos? Só me resta a sensação de que nós (eu e você) somos tipo, o underground do underground. É, amigo, nós somos muito TR00.

E ainda fica a deixa: Não somos vistos ou não nos querem ver? Comentem.


Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. De fato, o mundo da arte é uma "pequena GRANDE panelinha", já vi muitos ganhadores do HQMix onde tinham outros melhores (talvez seja apenas na minha opinião) concorrendo com eles. Mas se todo mundo desistir de correr atrás porque tem "panela" ou porque a mídia não dá o mínimo de atenção pra esse tipo de coisa, nunca que vamos sair do lugar. O jeito é correr atrás e fazer barulho, até que alguém de fato ouça.

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    1. o importante é sempre continuar independente das dificuldades, é verdade, mas também não adianta ignorar que a situação existe... além disso, tem sempre a possibilidade de que ninguém de fato chegue a te ouvir...

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    2. A situação não só existe como ainda vai demorar pra mudar, pelo menos até o povo ganhar apreço pela leitura (de um modo geral), e começarem a olhar mais pro que vem de dentro do que o que vem de fora. Enquanto isso, a gente vai tentando. =D

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    3. poxa, seu otimismo me anima! rs =)

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    4. Acredite, sou tão pessimista quanto teimoso. =D

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  2. Acho que não querem ver mesmo. Não querem ver ninguém. Se não houver a panela certa, se não houver o amigo do fulano certo, não vai. Eu vejo por aqui, com os YouTubers, com blogs, com alguns que até produzem coisas legais mas demora pro pessoal descobrir e quando descobrem, uma outra panela é formada. Não tem jeito. Ou se produz, ou não se faz nada. Uma vez ouvi um feedback indireto vindo de uma das panelas do hype onde eu virei "ilustrador esforçadinho sem nada para dizer". Beleza. Perdi a vontade de fazer muita coisa. Na minha panela, até onde eu sabia, sempre funcionou... É tudo o trenzinho do hype de alguém... uma hora ou a gente entra em um trem ou ele que passa por cima da gente... parou de fazer algo, péin, olha o trem passando por cima...

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    1. haha pois é, eu vejo isso mesmo, ainda bem que não sou a única.
      fico fazendo cara de blasé, que não tô nem aí, mas eu tava na luta há um bom tempo e agora acho que o trem tá começando a me atropelar...

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  3. Gostei do post, Mari--chan! No último evento que fomos, me perguntaram por que nós nunca fomos indicadas. Essa pergunta veio de pessoas que ganharam o HQMix e trabalhavam como jurados no evento... Aí eu fiquei tipo, ãh? Vai entender... Porém, existe o outro lado. Pra que que serve essa premiação afinal? Ajuda a vender mais? A ficar mais conhecido? Ganha um dinheirinho? Prêmio é um atestado de que somos melhores que outros? Temos mesmo que receber uma premiação dessas como um "toma aí um petisco por ter feito quadrinho nesse país de artistas sofredores"?
    Seria aquela coisa... legal,ganhei, mas...? Esse prêmio levanta a moral, vira festinha e tals. Mas o que nós queremos mesmo são leitores, mangá nacional nas bancas, dinheiro pra manter a dignidade e por aí vai.^^ Daí a gente reclama que não ganhou esse prêmio e vem uns falando pra gente calar a boca porque a gente já está publicando... Que a gente tá famosa e não pode reclamar mais... Aí nos ignoram, mesmo sendo "famosas". Tudo vira mimimi nosso. Mas escreve o que eu estou falando, Mari, NUNCA vamos ganhar essa po**a. Nem seremos indicadas. Afinal, eu a Shirubana estamos há quatro anos publicando e nunca fomos indicadas pra prêmio nenhum e a revista dos cuecas, que já morreu, ganhou vários prêmios na primeira edição. Mangá tbém...Aí podem dizer que somos ruins, mas por que os cuecas nem foram pra frente se são os fodões? Muitas perguntas sem respostas...

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    1. Pois é.. até mesmo grandes figuras do cenário de quadrinhos criticaram a lista (pelo que acompanhei no site) e a questão que todos levantam são os critérios... sem desmerecer ngm é claro... pra mim isso não é um prêmio sério, é só um tapa-buraco ou um cala a boca para quem acha que não há incentivo. Aliás, como vc disse não sei pra que que serve o prêmio se esse povo que ganha já tem certo prestígio, e a grana, bem... é aquela velha história...

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  4. Vocês não são vistos.
    Desde não sei quando, a mídia quadrinhos no Brasil virou coisa de nerd ou otaku. Não de pessoas comuns, como era antigamente.
    Vc não vê notícias por exemplo, falando de histórias em quadrinhos em si, essa mídia ficou estranha aos olhos das pessoas e dos jornalistas.
    Temos um punhado de portais de internet por aí, só um deles tem um blog que fala de quadrinhos, o UOL.
    Olha o tamanho que tá essa porcaria.
    Quem mexe hoje em dia com gibi é gente que foi criada com gibi nos anos passados e que hoje não sabe mais como chegar em pessoas não-leitoras.
    E acerca dos prêmios, com todo respeito, eles não servem pra nada.
    É tudo um ciclo. Menos pessoas lendo quadrinhos é igual a menos consumidores e leitores.
    Sem leitores novos, o cara vai se fechando no nicho do quadrinho alternativo que poucos lêem.
    Vira isso aí.
    Enquanto isso, em países com mercado de quadrinhos de verdade, as vendas vão muito bem obrigado, passando de 50,000 exemplares vendidos em média.
    E lá eles tem variedade de títulos para todas as idades.
    O que temos aqui no Brasil? Um punhado de títulos pra nichos.
    Como vc colocou: o bolo precisa crescer.
    Teve título aí que começou do nada, mas pegou leitores e tá se mantendo no mercado, mais de 50 edições mensais. E não tá dando sinais de cansaço.
    Mas preferem festejar gibi de RPG de 10 anos atrás que durou 42 números? Ah, vá!
    Espaço pra ter leitores novos tem, mas querer trabalhar com o público-alvo novo tem?
    Ah, as dúvidas...

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    1. Ninguém quer apostar num público-alvo novo justamente pq tá funcionando dentro de um nicho. Foi inclusive o que ouvir em algumas discussões por ai: "se funciona, pq não apostar apenas nisso?" mas ainda vai da proposta do autor... alguns querem fazer o famoso "quadrinho pra quadrinista ver" que não deixa de ser um nicho, mas é tão isolado que acaba ignorando e rejeitando todo o resto (de autores E leitores interessados). Enfim, uma discussão longa. Eu como autora quero sempre alcançar novos leitores, e já provei pra muitos que hq nacional também tem qualidade. Mas esta sou eu, eu quero que o bolo cresça, ele merece crescer, mas não basta apenas a minha vontade...

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  5. Acho que o "The Fool" comentou de maneira bem pertinente, reafirmando o que eu pensei em dizer: O bolo precisa crescer! Ir além dos pequenos nichos, novos públicos... etc.

    Lembro de um filme chamado "Room 666", um documentário filmado num Festival de Cannes do início dos anos 90. São várias entrevistas com diretores discutindo sobre o futuro do cinema... tem até o Spielberg. Eles estavam preocupados com o surgimento do VHS e de como isso poderia representar o fim das salas de cinema... Bom, isso é extremamente datado já que o VHS não é mais uma ameaça(Ufa!). E o filme é bem chato apesar de ter gente conhecida.

    Mas o interessante é que a opinião mais relevante é do cara mais desconhecido do filme, um diretor sul-africano. Ele dizia como era preocupante o fato dos diretores não se interessarem mais pela vida. E criticava filmes que falavam sobre filmes. Hey! Tem ótimos filmes sobre filmes que são excelentes, como o "8 e Meio" do Fellini. A questão é: Cinema é uma coisa exelente, a melhor de todas para quem trabalha com isso. Filmes podem falar de filmes... Mas o ideal é que filmes falem sobre a vida.

    O que eu percebo nos quadrinhos aqui é algo do tipo: os autores não se interessam pela vida. Se interessam pelo seu próprio universo. HQs em que o personagem principal é um escritor, ou artista aspirante... Os temas, como os temas são apresentados, a formatação da coisa toda, inclusive as premiações. É tudo parte do mesmo universo. É uma faceta da vida. Da vida de quem cresceu lendo HQs, trabalha com HQs, se diverte com HQs... Por que raios alguém ia querer fazer parte desse universo limitado?

    As maioria das pessoas não lêem HQs, nem consideram arte trabalho. E pense, você pode usar toda a sua paciência para explicar e argumentar, mas o mais legal é usar a situação a seu favor. Quando me perguntam o que eu faço digo: Diretor de Arte! Isso já te joga lá no alto. As pessoas acham que desenhar é um dom? Sim, um privilégio de poucos concedido por Deus.

    Pode parecer prepotência. E é, longe da realidade. Mas a gente precisa ter a cara-de-pau e confiança de um ladrão. Para poder roubar o coração das pessoas. Seduzí-las. A sedução não é racional, é emocional.

    Os marcianos não querem nos ver? Bora seduzir o resto da galáxia...

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  6. É isso mesmo, como respondi no comentário acima, tem muita gente que faz "quadrinho pra quadrinista ver" e tudo bem, até funciona. Mas eu como autora não quero isso, quero que o mundo veja, as "pessoas normais" vejam.. já recebi vários comentários de pessoas que, ou não costumavam ler mangá, ou não costumavam ler romance, e que gostaram muito do Vidas apesar disso. Ou seja, não precisa se limitar a um nicho ou gênero, é ótimo quando as pessoas de fora se identificam e se inspiram pela leitura... é impagável. Prefiro meus leitores porque são sinceros, realistas. Eles não precisam gostar necessariamente, passar a mão na minha cabeça e dizer pra eu continuar. É mais que isso... enfim, já estou divagando xD

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  7. Cara... esse post diz tudo que estava entalado na minha garganta!

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