quinta-feira, 27 de março de 2014

A mente inquieta de um ser incomodado

Às vezes penso em como deve ser bom ser "normal", mas talvez normal não seja a palavra certa. Tem algo sobre a criatividade, algo inquietante que nos impede de viver a vida como se espera, e isso tem tantos pontos positivos quanto negativos. Tem algo sobre ser eternamente insatisfeito com as coisas que também incomoda. Não tem um dia sequer que estejamos completamente a vontade com as coisas (com a vida particular, com a vida profissional, com as relações pessoais, etc) e quando esse dia realmente acontece, de alguma forma parece errado. Porque é como se estivéssemos acomodados com uma realidade que não nos pertence. No geral, nada nunca está bom. Mas tem algo que me incomoda mais que todas as coisas, é quando tenho a sensação de que já não estou fazendo mais isso por mim, que já estou fazendo porque acho que devo alguma coisa a alguém. 

Tem algo engraçado sobre a nossa geração, principalmente quando acompanho canais como o Trampos.co é que as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas profissionalmente e estão nessa corrida incessável pelo trabalho ideal. "Está cansado do seu trabalho chato?" é o que mais ouço por aí, e é tão comum mudar de emprego que até eu fico assustada. Seja a busca por um bom salário, seja a ascensão profissional, seja a satisfação pelo que se faz. Pode acreditar, na época dos nossos pais não era assim. Na verdade, em seus sermões sempre ouço o quanto os jovens de hoje são impacientes e já querem começar grande, porque eles estão acostumados com a ideia de viver e "crescer" dentro de uma empresa; começar como motoboy e terminar como chefe de departamento, essas coisas. Não vou dizer que não acontece, porque ainda acontece. Minha mãe trabalha numa empresa há mais tempo que eu existo, e ela conseguiu seu lugar lá. Tem lugar pra todo mundo, pra todo tipo de pessoa, sabe.

Mas a questão é: as pessoas estão ficando cada vez mais insatisfeitas e criteriosas com suas posições, ou o mundo está simplesmente mudando? Para mim, estes são indícios que mostram nada menos do que uma tendência para o futuro. Profissionais ligados a criatividade e comunicação não querem mais viver enfurnados em escritórios fechados, e também não querem a solidão de suas casas no trabalho como freela. Por que não pode existir o meio-termo? Isso é totalmente anti-trabalhista. É verdade que empresas abusam do "PJ" que acaba trabalhando como CLT só que sem os benefícios, mas se o mercado se adaptasse à demanda, e acredito que já esteja acontecendo, então as pessoas teriam mais uma opção de modus operandi de trabalho. Se funciona? Eu não sei.

Sejamos realistas: também estamos nessa corrida, e não é por acaso. Bom, pelo menos eu estou. Nossos pais construíram vidas concretas, e hoje nós temos acesso a praticamente todo tipo de conteúdo através da internet, mas ela é tão subjetiva que não existe mais quase nada de concreto em nossas vidas. Procuramos satisfação em coisas que não conseguimos nomear, e nos sentimentos tristes quando não vemos sentido no que fazemos. Entramos muito cedo na faculdade pra saber se era a coisa certa, e nos formamos quase que completamente inexperientes na vida profissional. Estudamos demais e investimos demais, mas temos que começar do zero. Somos velhos demais para viver com os pais, afinal, também queremos a tão esperada independência, mas não temos "tudo o que precisa" para ganhar suficientemente bem pelo que fazemos - muito menos para nos sustentar mundo a fora. Eu acho que a sociedade não quer que nós sejamos independentes. Outro dia fui cotar um seguro pro carro, e o valor anual era praticamente 1/4 do valor que paguei no carro, só porque eu tinha menos de 25 anos. Eu estou cagando para as estatísticas, mas fazer o que.... é assim que o mundo funciona. No final, estou vivendo perigosamente no trânsito de São Paulo sem um seguro, e quer saber: temos um medo doentio e irreal que foi implantado nas nossas cabeças, de que tudo precisa ser um jeito - e de que você precisa da porcaria de um seguro - porque um dia qualquer uma merda vai acontecer, e você vai agradecer por estar "assegurado". Tenho que admitir que esse medo me assombra às vezes... Mas não existe nada de seguro nessa vida, é tudo ilusão.

Nós colecionamos símbolos, e meu carro foi a primeira coisa concreta realmente minha. Simboliza meu desejo pela liberdade (de ir e vir) e talvez seja um paliativo porque ainda não saí da casa dos meus pais. Quando penso que minha vida poderia ser diferente, com um cantinho só meu, eu me consolo: "Pelo menos tenho um carro" e não preciso depender totalmente de transporte público e nem da boa vontade das outras pessoas. Isso inclui outros problemas que não vem ao caso, mas como disse, realmente me ajuda em vários sentidos. Afinal, os símbolos servem pra isso...

Outro dia estava quase marcando um psicólogo pra mim, estava praticamente certa de que deveria pelo menos tentar. Conheço muita gente que adora, e diz que funciona. Eu não duvido. Cem anos de estudos e evolução no estudo da mente humana não aconteceram em vão. Mas aí eu pensei bem e percebi que não era o que eu realmente queria fazer. Eu queria abrir a aba do blogspot e escrever um post novo e longo sobre a minha (e a nossa?) vida perturbada. E eu não digo isso para desmerecer as pessoas que buscam ajuda profissional para seus problemas, mas eu sou meio sádica e prefiro sofrer na busca solitária por uma solução. Afinal, talvez isso renda alguma boa história.

Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. Não tenho palavras pra descrever o quanto me identifico com esta situação, obrigada com dividí-la com desconhecidos familiares :~. Comento mais e melhor quando me sentir menos deprimida. ;*

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    1. Poxa vida, até fico meio aliviada, sabe! É sério. As vezes eu escrevo esses posts na busca por alguma compreensão e também pra saber se não estou sozinha nesse barco... haha... esperarei por seu comentário, hein! ;)

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  2. Poxa... Faço minhas, as palavras da Ludmila. ;-;
    A cada dia que passa, essas palavras ''explodem'' toda hora em minha mente... :<
    Nem sei o que dizer... rs

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  3. Cara, é muito engraçado! Sempre que me sinto perdida, gosto de vir e ler as coisas que você escreve. Parece que me encontro, sabe? E tomo um novo ânimo para ir em frente com o que acredito.

    Identifico-me muito com suas palavras, principalmente com esse final. Hoje, meu professor estava falando de Camilo Pessanha, e em como ele acreditava na dor como o caminho para a felicidade, que só amadurecemos através da sofrimento, e que este nos traz uma intensa sensibilidade para com o mundo. Meio louco, mas, em meu ponto de vista, realmente verdadeiro OoO! A dor era o que impulsionava sua escrita, e seu auto-conhecimento, e eu meio que me encantei com o homem, por me lembrar que era realmente nos momentos em que a gente se sente estranho nesse mundo que os momentos de criatividade afloram.
    E enquanto meu professor falava, lembrei-me de outro post seu, um antigo, que falava sobre como ficamos cheios de ideias naqueles momentos deprês. É realmente esquisito! XD

    Ah, acho que é a primeira vez que comento aqui, mesmo acompanhando o Vidas a um bom tempo. Hmm, sinto-me um pouco nervosa. É meio que falar com um ídolo E.E
    [Sorry minha babaquice =-=)~]

    E antes de ir, queria dizer que realmente me identifico muito com suas histórias, e com tudo que escreve. Só espero que, apesar das dificuldades, você consiga realmente se realizar no caminho que está trilhando. De verdade.
    Apoio é o que não falta =u=)d

    Enfim, vou procurar comentar mais por aqui!
    Até!

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    1. Ola, tudo bem? Fiquei muito feliz pelo seu comentário! principalmente pq vc disse que lia há bastante tempo mesmo nunca comentando. Acredite, cada palavra é um incentivo, é uma prova física de que as pessoas estão acompanhando. Pode parecer bobo, mas significa muito pra mim. E também fico feliz que as pessoas possam se identificar ou se inspirar pelas coisas que escrevo. Faz todo o meu trabalho e meu esforço valerem a pena! =)
      Volte sempre e sinta-se a vontade para comentar mais vezes ;)

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