terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Timidez, quem é você?



Não lembro se já falei sobre isso por aqui, mas provavelmente já devo ter ao menos comentado. Eu era, assim, uma criança tímida. Não lembro quando ou como começou, mas minha família diz que até uns 5 anos eu era faladeira, tipo, não parava de falar nem por um segundo, e de repente, tudo mudou. Talvez tenha sido a escola - a gente é jogado no meio de outras crianças e se vê completamente vulnerável sem a presença dos pais. Lembro de como era aterrorizante andar por entre aquelas crianças bem maiores que eu, nos corredores abarrotados, carregando uma lata pesada de leite em pó, com medo do tio da perua ir embora sem mim. Depois eu mudei de escola e as coisas melhoraram um pouco, mas eu ainda demorava para fazer amigos (quem aqui nunca foi "expulso" de um grupinho de amigos sem nenhuma razão aparente? Crianças podem ser cruéis). Também sofri bullying, mas naquela época ainda não tinha esse nome. Era zoada por ser estranha, diferente das outras crianças, por ser vulnerável, e tudo o mais.

Quando comecei a fazer amigos de verdade, essa fase foi passando aos poucos. Acho que fui ganhando confiança como pessoa e fui perdendo o medo de ser eu mesma. Devo isso aos grandes amigos que fiz na escola, que me mostraram outro caminho que não o da solidão do meu pequeno universo (apesar de ainda me ver muito dentro dele). Bom, eu posso dizer que nunca fui popular, eu era do grupo dos "nerds", ia bem na escola e gostava de estudar. Mas também fazia bagunça no fundão, e todas aquelas coisas de gente jovem. Eu já não era uma excluída, e ser "diferente" tinha uma nova perspectiva - de que isso fosse legal.

Cultivar meu próprio universo particular foi o jeito que encontrei pra superar alguns traumas do passado, e curiosamente, ele existe até hoje, e me permitiu criar histórias emocionantes. Sair da minha bolha, porém, se mostrou necessário, uma vez que pra escrever boas histórias é preciso conhecer outros mundos além do nosso próprio.

Eu sofri com minha timidez por mais tempo que gostaria, acreditando que era uma coisa ruim, uma coisa que também deveria superar para obter sucesso na vida. Convenhamos, foi o que ouvi durante muito tempo, até me dar conta de que não era bem assim. Toda a energia que eu gastava tentando não ser tímida, tentando me enturmar, na realidade só me fazia travar ainda mais. Me via naquela situação que não sabia como me comportar, ou o que dizer, com medo de sei lá o que. E as pessoas sempre vinham dizer "nossa, como você é quietinha" ou então "você não fala muito, né". Toda vez que ouvia algo do tipo eu sentia que havia falhado. Mas peraí, por que era tão difícil? Parecia ser muito fácil, era só ir lá e falar o que se passava pela minha cabeça, qualquer coisa. Parecia que eu ia morrer de constrangimento. Me lembro desses momentos, porque quando eu tentava dizer alguma coisa, era estúpido, e as pessoas não entendiam (o que reforçava meu medo). Aquela não era eu. Isso costumava acontecer em situações em que não conhecia quase ninguém; com amigos próximos, era completamente diferente. Estranho, né? Acho que eu me sentia confortável com eles. Não, nunca foi fácil pra mim me conectar com as pessoas (talvez isso explique minha tendência para amizades virtuais... na internet eu encontrava pessoas com os mesmos interesses que eu e já tinha assunto).

Então, alguma coisa aconteceu dentro de mim, porque eu estava realmente cansada dessa pressão interna e do sofrimento desnecessário. Foi na mesma época em que saíram estudos sobre a timidez - finalmente ser tímido não era uma coisa ruim, e poderia ser aproveitada profissionalmente. Poxa vida, mas demorou tanto tempo assim pra se perceber que a timidez não é uma doença, uma falha social ou uma condição que deve ser melhorada? A timidez só traz malefícios realmente quando nós, os tímidos, nos sentimos prejudicados por ela. Foi quando eu comecei a aceitar estas particularidades sobre mim mesma, a introversão, que ser tímido deixou de ser um problema. Hoje encaro as situações sociais com muito mais naturalidade, dou uma chance a mim mesma de me expressar, sem muita pressão.

Me aceitar foi o primeiro passo para superar o status de timidez. As pessoas vão, em algum momento, apontar isso como falha, mas não podemos ceder. Tudo bem não socializar, conversar com as pessoas, ser extrovertido. Tudo bem se eu fizer todas essas coisas também. Engraçado foi constatar que, quanto menos eu exigia de mim mesma, mais eu conseguia falar com as pessoas, mais me sentia confortável comigo mesma e com os outros (confortável para começar uma conversa e também para evitá-la), e que eu criava barreiras idiotas para mim mesma. Ok, em muitas situações ainda me sinto meio perdida, e tenho que recorrer para as técnicas-especiais-para-evitar-situações-desagradáveis.

Não quero ir muito a fundo na questão científica da timidez (algo a ver com uma auto-consciência muito elevada, o medo irracional de ser julgado ou de parecer idiota). Talvez seja tudo verdade. Eu só não quero tornar isso muito maior do que é, afinal, podemos ser tímidos, mas somos muito mais que isso, e não podemos nos definir com apenas uma palavra. A vida é mais que isso, e o mundo também.




Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. sou tão tímido que prefiro dizer isso como Anônimo. mas gostei da materia.

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  2. Ler seu texto só reforçou ainda mais uma coisa que percebi recentemente com a vivência: Quanto mais a gente se cobra pra alcançar algo distante demais do nosso normal, menos a gente se sente motivado ou confortável com aquilo. Eu acho ruim o hábito que as pessoas têm (incluindo, infeliz e inconscientemente, eu) de deixar escapar essas frases "Nossa, mas você é tão assim! Tão assado!" e por mais que as pessoas falem de forma descontraída, de 'brincadeira', elas não pesam a consequência que isso pode ter na interpretação de quem ouve. Como no seu caso, te incutiu a necessidade de mudar a timidez, sem ter uma necessidade real pra aquilo.

    Eu não sou tímida, já fui cosplayer e subi fantasiada em vários palcos da vida xD Mas eu sei como é essa sensação de se incomodar porque é minoria ou porque a sociedade diz que você não pode ser assim. No final, quando você fica segura do que você é e das suas convicções, a opinião das pessoas transparece muito bem a influência que recebem de todo mundo.

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    1. Acho que é isso mesmo! É foda quando a cobrança vem de fora, mas quando vem de nós mesmos, é pior ainda. E a gente se cobra justamente por uma influencia externa, uma necessidade de seguir um tal padrão. Eu ainda ouço muito esses papos de "vc não fala muito" mas não me afeta como antes, eu apenas sorrio e sigo em frente. É realmente mais fácil definir a pessoa por uma característica que pra pessoa que define, é relevante, mas para mim é só "mais uma coisa"...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Obrigada por um texto em que posso me identificar e eu quero ler vidas imperfeitas, porque você Mariana, virou uma as pessoas em que posso me inspirar.
    Posso contar uma historinha? Eu era que nem você, acho que fui uma pestinha até os oito, ou nove anos; sempre correndo (eu não sabia andar como gente), rindo, dançando, cantando...
    Quando cheguei a pré-adolescência parei com tudo isso e virei alguém que fica no quarto. Quando vou falar com as pessoas, ou não falo, ou falo tanta besteira que sou conhecida como bruta e, talvez, sem emoções. Eu machuco gente sem perceber. Só que eu não tenho culpa, né? Eu só não sei o que fazer.
    Eu tenho um universo particular também... Será que um dia publicarei um dos meus livros? (Sou uma autora de coisas intermináveis)
    Poderíamos nos conhecer (sério, eu não acredito que falei isso) e eu... obrigada de verdade.
    Acho que um dia eu aprendo, não é?

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    1. Sim, com o tempo aprendemos a conviver com nossos medos, e a distinguir o que gostariamos de fazer com o que as pessoas acham que deveríamos fazer. É também questão de achar um meio termo entre nossas particularidades (o que as vezes é tão dificil mudar) com nossas necessidades. Ahhh, a adolescência faz isso com a gente mesmo, época de mudanças que acaba definindo boa parte do que somos hoje =)

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