terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Side story "Depois"parte 7

Wow, mas isso foi mesmo uma maratona de side-stories! Hehe... Isto é basicamente o que escrevi até agora. Talvez eu continue, talvez não. Se continuar, é provável que mude de foco, mas foi bem divertido fazer isso... espero que estejam gostando também!

Leia a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e sexta parte também =)




Seis meses depois

Quando me dei conta, já estava morando na casa do Diego, mas ele quis oficializar me pedindo pra ficar, e eu aceitei com a condição de que pudesse pagar uma parte do aluguel. Um tempo depois, arranjei um emprego na escolinha de teatro que a antiga professora do colégio tinha aberto. Ela disse que era ótimo ter uma “atriz bem sucedida na europa” como professora, mas é claro que eu não era nada daquilo. De qualquer forma, era bom trabalhar com crianças porque elas não eram tão hipócritas quanto as outras pessoas, e além disso, eu aprendi mais lá do que em todos os anos de curso. Eu estava me encontrando no mundo, e não tentando desesperadamente me encaixar.

O meu pai estava muito melhor e a resposta dos médicos era animadora. O câncer havia diminuido bastante e ele havia ganhado mais tempo de vida. Nunca se falava em cura, mas tudo bem, porque não existe cura para a morte de qualquer forma.

As coisas começaram a mudar quando recebi uma carta da minha antiga roomate, dizendo que estava saindo do apartamento, o que queria dizer que eu teria que pagar todo o aluguel sozinha, bem, meu pai teria que fazer isso, e ele já estava pagando por uma coisa que eu nem estava usando há meses. Pela primeira vez, pensei que deveria voltar, pelo menos para resolver estas questões pendentes.

Pensei por alguns dias qual seria a melhor forma de contar, mas cheguei a conclusão que a verdade deveria ser dita assim como se tira um band-aid. Então, quando eu disse que estava pensando em voltar, o Diego não perguntou porque ou por quanto tempo, apenas disse que “tudo bem”. Aquilo me deixou um pouco incomodada. Mas quando ele parou de falar comigo, isso me incomodou ainda mais.

-Por que você não diz o que pensa? Sei lá, você está bravo porque eu disse que iria voltar pra Londres?

-Eu não estou bravo.

-Então o que é? É difícil viver com seu silêncio.

-Não estou silencioso, eu apenas não tenho nada pra dizer.

-Nada? - Insisti.

-Nope - ele respondeu de um jeito irritantemente debochado.

Mas eu estava começando a ficar com raiva.

-Por que você disse todas aquelas coisas pra mim no dia da festa? Por que tudo aquilo e por que tão tarde? Eu estava magoada, e fodida pra caralho, mas mesmo assim quis dar uma chance pra… isso! Sei lá, não sei de mais nada.

-Eu disse o que eu disse e não posso voltar e apagar tudo. É assim que as coisas são.

-Você me pediu pra ficar na sua casa, puta que pariu!

-O que você quer que eu diga? - ele se alterou - Que eu quero que você fique? Você sabe que eu não faria isso, eu disse isso naquele mesmo dia. Então não tente me testar ou seja lá o que é isto que está fazendo. Apenas vá, e faça o que tem que fazer, e volte, se achar que deve. Mas eu não posso prometer que estarei aqui até lá.

Eu sabia com quem estava me metendo, mas aquelas palavras doíam pra caralho. Porque ele havia me pegado num momento de fragilidade e só agora eu estava me recuperando. Ele estava certo, eu não podia pedir a ele que me esperasse, assim como eu não poderia dizer quando ou se voltaria. Todas as variáveis do nosso relacionamento estavam dando as caras, e vou te dizer, não eram nada fáceis.

-Vem cá - ele disse, estendendo o braço - desculpa, tudo bem. Vamos resolver isso depois.

-Eu ainda tô brava.

A discussão valeu apenas pelo sexo de reconciliação, que costumava ser bem mais radical que o normal. É como se a gente quisesse provocar dor e ao mesmo tempo sentir dor, porque a dor física era nosso melhor remédio. Eu não teria pensado da mesma forma duas semanas depois, quando acordei passando muito mal.

-Eu sabia que não devia ter comido aquele sushi! - eu gritei entre um vômito e outro.

Tomei um remédio para enjoo, o que não adiantou nada porque horas depois estava de volta ao banheiro. Não sabia que um sushi poderia fazer tanto estrago, quando finalmente me lembrei do detalhe mais importante daquela empreitada. Minha mente simplesmente fez tilt, e tudo fez sentido. Não, não, não. Eu sai do banheiro de costas, olhando aquela bacia cheia de vômito, as mãos na cabeça, quando Diego apareceu, meio preocupado, perguntando:

-Que foi? Você tá bem?

Ele caminhou até o banheiro e viu todo aquele vômito, e quase perguntou alguma coisa, então ele percebeu a minha expressão de desespero e também deve ter tido algum tilt, porque apenas disse: “Vou na farmácia pra você”.

Ele trouxe uns três testes de gravidez diferentes, e todos - claro - deram positivo. Eu apenas continuava repetindo mentalmente não, não, não como se isso pudesse reverter a situação. Eu tava na maior encrenca do universo e não podia acreditar.

-Eu achei que fosse por causa do nervosismo, por causa da viagem, sabe… isso já aconteceu comigo antes, então não me preocupei, mas aí lembrei que já faz mais de duas semanas… Ai-meu-Deus-eu-to-muito-fodida.

Diego sentou na privada e começou a roer as unhas, pensativo. Então ele olhou pra mim, e depois voltou a roer as unhas.

-Quão fodida está a Juno? Muito fodida! - eu comecei a cantarolar pra espantar um ataque cardíaco eminente.

Então o Diego levantou e me puxou pelos braços até o quarto, me jogando na cama logo em seguida. Ele arrancou a camisa e pulou em cima de mim, e começou a me beijar loucamente. Eu não sabia se estava entendendo então parei por um segundo:

-Pera, o que a gente tá fazendo?

-Eu não sei, isso importa agora?

Eu fiz que não com a cabeça, afinal aquela não era a melhor hora para se pensar racionalmente, e umas boas doses de endorfina seriam bem-vindas. Tentei fingir que nada daquilo estava acontecendo, mas no dia seguinte vi os palitos com sinalzinho de "mais" jogados no lixo e meu estômago revirou. Era tão sério quanto poderia ser, e eu estava menos dez porcento preparada.

Minha viagem estava marcada para ali alguns dias e eu decidi ir mesmo assim, sob o pretexto de que usaria esse tempo para pensar no que fazer. Isso incluía decidir sobre o aborto, porque eu definitivamente preferia fazer isso na Europa, caso fosse minha decisão.

O Diego me abraçou e disse “se cuida”, mas eu podia ver a preocupação na sua voz. A culpa não era dele, mas acho que ele se sentia culpado. Eu também era uma idiota, porque às vezes a vida parecia tão fácil que a gente se descuidava. Eu tinha vinte e três anos e estava grávida, e nem ao menos tive coragem de contar a minha mãe. Fui para Londres chorando praticamente o vôo inteiro, como se ainda fosse uma criança que se perdeu dos pais.

Chegando no flat, eu tive um surto psicótico e acabei jogando fora boa parte das minhas tralhas. Arrumei o apartamento inteiro e até mesmo organizei os filmes e Cds em ordem alfabética. Eu estava ficando maluca só de imaginar um alien crescendo na minha barriga a todo instante, a ideia era aterradora.

Cruzei com alguns amigos pela rua, tomamos chá juntos, e eu tentei parecer o mais normal possível. Eu disse que estava namorando e que talvez voltasse para o Brasil. Eles queriam que eu ficasse, mas eles não tinham uma decisão de proporções estratosféricas pra tomar, então eu os desculpava.

No décimo dia em Londres eu estava me sentindo tão deprimida que deu pena de mim mesma. Aquela tinha sido uma péssima decisão, de ir para um país distante completamente sozinha, eu tinha certeza, e foi quando a campainha tocou. Eu continuei olhando e olhando para a pessoa do outro lado da porta, sem nenhuma reação.

-Tô atrasado - ele disse, sorrindo e jogando a mala no chão.

-Mas… por que? - eu perguntei, ainda confusa.

-Eu não sei, tive o súbito impulso que deveria vir.

Eu não podia parar de olhar pra ele, é verdade. Os cabelos castanhos, presos pelo óculos de sol no topo da cabeça. Mesmo que não tocasse mais numa banda, ele jamais perderia aquele ar meio rebelde, meio rock'n'roll. Isso soava meio brega, mas eu gostava. Eu gostava de olhar pra ele, pra seu rosto meio delicado e meio anguloso.

-Vai me convidar pra entrar? - ele perguntou elevando uma sobrancelha.

Eu abri espaço para ele passar pela porta, ele caminhou até a sala e deixou o óculos em cima da mesinha, assim como o celular que tirou do bolso.

-Então, como estão as coisas? - ele perguntou sentando no sofá.

-É… bem… - respondi um tempo depois.

Ele sorriu, e eu sabia que aquele sorriso queria dizer alguma coisa. Ele sabia me ler tão bem que me dava raiva. Eu caminhei até ele, abri a boca, mas não consegui dizer nada. Então apenas fiquei alí parada, sem saber o que pensar. Porque ele tinha vindo todo o caminho até Londres? Eu queria saber mais que tudo, e não queria respostas evasivas.

-Ainda tendo aqueles enjôos chatos… - eu disse, finalmente.

Ele ainda estava sentado mas me puxou pelo braço, me abraçando pela cintura. Eu envolvi sua cabeça, acariciando seus cabelos, que eram incrivelmente macios. Enquanto isso, ele passava as mãos sobre as minhas costas, pela minha cintura, pelo meu quadril, e chegando nas pernas... devo dizer que senti falta do contato. Fechei os olhos e apenas senti enquanto ele me tocava. O que eu podia fazer se era uma pessoa tão… física.

Então ele parou, e ficou me observando enquanto me contorcia. Ele deu aquele seu sorriso cínico, então eu o empurrei pelo peito e sentei sobre ele. Ele enfiou as mãos por debaixo do meu vestido.

-Eu acho melhor aproveitar enquanto você não está gorda e extremamente grávida.

Eu dei um soco em seu peito, ele gritou e fez uma cara de sofrimento.

-Hey! Isso dói. Você devia saber melhor a força que tem…

-Eu sinto falta disso - confessei.

-Do que?

-Você sabe, bater nas pessoas.

-Você sempre pode fazer aulas de boxe.

-Não - eu disse, balançando a cabeça negativamente - eu quero dizer, bater nas pessoas de verdade.

-Você me assusta às vezes.

Talvez ele ter vindo tenha sido tipo uma segunda confissão de amor. Era isso o que ele queria dizer? Pra dizer a verdade, eu estava cansada de tentar fugir, de viver uma vida solitária, cheia de casos superficiais e pessoas estranhas na minha cama. Cheia de mágoas. Eu fiz isso por um tempo porque achava que deveria, que me faria feliz, que precisava desesperadamente ser livre. Mas eu queria ser assim tão livre quanto Diego acreditava? Talvez eu só quisesse que pelo menos alguma coisa desse certo. Então me perdi naquele azul infinito… eu amava aquele cara na minha frente? O que era o amor? Mas quer saber, era ele que estava alí e mais ninguém. E caralho, nada daquilo fazia sentido. Um namorado de adolescência. Alguém que nunca realmente conheci. Alguém que olhava pra mim como se eu já fosse completamente importante. E quando foi que ele se tornou tão importante pra mim…?

-Diego… - eu comecei, sem pensar muito - você quer ser o pai do meu filho?

Ele apenas sorriu seu sorriso sexy e disse "estava esperando você perguntar".

-Isso quer dizer que…eu vou ser uma mãe? Eu vou ser uma mãe? Meu Deus, eu amaldiçoei minha mãe por anos e agora vou ser uma delas… Isso é terrível.

De repente, eu já tinha tomado minha decisão. Talvez eu já tivesse decidido desde o começo, por isso estava sofrendo, porque este era o caminho mais tortuoso, mais longo e difícil. Era difícil aceitar, e dava um nó na garganta de imaginar, mas nós continuamos. Nós nos tornamos aquele tipo de pessoa, mas quer saber, eu não me importava nem um pouco.

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