domingo, 26 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 6

Aqui a side-story muda um pouco de direção, mas eu queria explicar como cheguei na última parte... espero que gostem ;)

Leia a primeira, segunda, terceira, quarta e quinta parte também =)



Sete anos antes


-Eu larguei a faculdade.

-O que? - Perguntou a mamãe.

-Eu larguei a faculdade. Tentei o máximo que pude, mas agora simplesmente não dá mais.

-Filha, mas por que? Não faltava pouco para se formar?

-Sei lá, agora não importa mais - percebi que a resposta não seria o suficiente, então continuei - Faltei a muitas aulas, peguei muitas dependências, então eu teria no mínimo mais dois anos para terminar… Eu sinto que aquilo tudo não me acrescenta em nada, seria perda de tempo.

-Bem… querida… - ela começou - não sei o que te dizer, achei que era isso o que você queria.

-Eu sei, eu também achei. Acho que… me enganei.

-Tudo bem… quer dizer, você já falou com seu pai?

-Estava esperando ele sair da sessão.

-E o Louis?

-O que?

-O Louis? Você não estava namorando com ele? Até me mandou algumas fotos.

-Ah… - eu tinha me esquecido daquele pequeno detalhe - a gente terminou.

Mamãe piscou por alguns momentos, confusa.

-Ah, é mesmo? Ele me parecia um bom rapaz.

-Ele era decente - respondi - mas acho que… ele queria outras coisas. Aliás, eu tenho certeza disso - eu disse, me lembrando do seu pedido de casamento irremediavelmente romântico. Eu simplesmente disse que não. O que mais eu poderia fazer? Aquele tipo de vida não me atraía nem um pouco. Além do mais, era bom saber que não estávamos na mesma sintonia.

Mais tarde, quando o papai saiu da sessão de quimio, ele estava tão fraco e doente, e vomitava a cada cinco minutos, e eu lá tentando explicar meus dramas com a faculdade e o que me levou a aquela decisão. Fiquei me sentindo muito mal, e fútil. Ele estava lá lutando pela sua vida, e eu caminhando para minha auto-destruição.

-Querida, podemos conversar mais tarde? Estou realmente cansado. - ele pediu, a voz tão perdida.

-Sim… Claro! Me desculpe, não deveria te encher com essas coisas agora.

-Não… prometo que ouvirei tudo mais tarde. Só preciso… fechar um pouco… os olhos.

E então adormeceu na sua poltrona favorita. Mesmo que minha tia Ruth estivesse lá para cuidar dele, eu via como ele estava sozinho naquela casa vazia.

Ele estava melhorando, ou pelo menos era o que o médico dizia. Esta quimio era bem mais forte que a outra, mas ao mesmo tempo, muito mais devastadora para o corpo. Ele estava num estado completamente debilitado, mal podia levantar para tomar banho. A parte boa é que todos estavam confiantes que diminuiria o câncer em grandes proporções. Era esperar para ver.

Aproveitei que tinha acabado de voltar para o Brasil para visitar alguns amigos. Suzana tinha acabado de se formar em veterinária e trabalhava numa clínica no centro da cidade. Ela estava feliz, e descobri que estava saindo com o Pedro.

-O Pedro? Nossa… como isso aconteceu?

-Ah, não sei, a gente estudava no mesmo campus e acabava se vendo muito. Nos encontramos em algumas festas e tal…

-Entendi… - eu disse, sorrindo de forma maliciosa - estou tãaaooo feliz! Não sei como não pensei nisso antes, vocês são bem parecidos.

Suzana ficou vermelha.

-É, temos várias coisas em comum e tal…

-Ai, ai, é o amorrrr… - brinquei.

-Ai, meu! Para com isso - ela disse dando um tapinha nas minhas costas - Falando nisso, você ficou sabendo? Ele saiu do Mad House no ano passado.

-O que? - a notícia me chocou - Como assim? Saiu por que?

-Bom, pelo que ele me disse, e ele não disse muito, assunto delicado sabe, foi por causa de algumas desavenças com o Jay, e o Diego já tinha saído alguns meses antes e eles estavam procurando um novo baixista pra banda. Foi algo assim…

-Caramba…

-Foi meio tenso, foi uma fase negra pro Pedro.

-Imagino.

-Pensei que já soubesse… O Jay não disse nada?

-Não… pra dizer a verdade, falei muito pouco com ele nos últimos tempos. Ele tem morado sabe-se lá onde, com alguns amigos.

-Eu acho que o Mad House acabou mesmo.

Foi quando Suzana disse aquilo que me dei conta. Todos aqueles sonhos antigos tinham acabado de verdade. O Mad House não existia mais e cada um tinha seguido seu caminho. Era tão estranho…

Estava pra anoitecer, e eu não tinha nenhum plano para aquela noite quando decidi refazer um caminho que costumava fazer muito há seis anos atrás. Parei diante da casa dele, que estava com todas as luzes apagadas. Fiquei imaginando se ele ainda morava lá, ou o que tinha feito da sua vida. Fiquei lá por aproximadamente quinze minutos antes de Amanda aparecer no portão.

-Puta merda, você quase me matou de susto, achei que era algum trombadinha - ela disse com a mão no peito. Pois é, algumas coisas não mudam, mesmo depois de anos as pessoas ainda me confundiam - Juno, né?

-É sim.

-Ele se mudou, foi morar com nosso pai em São Paulo.

-Ah…

Então ele estava lá tentando conquistar a cidade grande.

-Você… hum, quer entrar?

-Não, já estou indo nessa… eu só pensei que… bom, deixa pra lá. Até mais.

Dei meia volta o mais rápido que pude, afinal, o que eu estava querendo? Ele agora estava bem longe, vivendo a vida dele, e era isso o que eu estava tentando fazer também. Eu tinha a estranha mania de ir atrás dele mesmo sabendo que não iria encontrar nada. Tudo o que eu tinha era um beijo de despedida e a promessa de um futuro inexistente.

Decidi entrar no grupo do facebook dos alunos e ex-alunos do colégio para ver se tinha alguma coisa rolando na cidade aquele dia. Eu definitivamente não iria para casa ficar alimentando as ideias terríveis que eu tinha sobre a vida naquele momento. Acabei encontrando um post sobre uma festa aberta na casa de alguém. Mandei uma mensagem para Gabriela e combinamos de nos encontrar lá.

-Porra, Juno, você poderia ter avisado que estava vindo! Eu teria combinado os rolês mais épicos do mundo.

-É, foi mal, eu cheguei ontem a noite, e meio que decidi vir de ultima hora.
-Bom, a festa na casa do Brunão não vai ser lá aquelas coisas, sabe, vai estar cheia de hipsters.

Eu dei de ombros, qualquer festa era melhor que nenhuma.

Bom, ou talvez eu tivesse subestimado meu humor para festas naquela noite. Depois de algumas bebidas, o efeito foi totalmente o contrário, e eu comecei a ficar totalmente deprê. Eu reconheci muita gente, algumas até vieram falar comigo, mas não tinha muito o que dizer. Em pouco tempo eu descobri o que cada um deles fazia, em que curso estavam, onde trabalhavam, e nada daquilo realmente importava.

Comecei a ficar realmente tonta então fui para o jardim. Senti um súbito cheiro de cigarro, um cheiro doce e diferente, e eu só conhecia uma pessoa que fumava aquela marca.

-Hey, você. Não deveria beber tanto assim, ou coisas ruins podem acontecer - eu reconheci aquela voz.

Me virei.

-Ai-meu-Deus-que-que-você-fez-com-o-seu-cabelo - eu soltei sem pausa entre as palavras.

-Cortei - Diego respondeu.

-EU VI!!! - talvez estava um pouco alta demais, pois estava gritando -Isso não é justo, eu só te namorei por causa do seu cabelo. Haha.

-Que bom, porque a gente não namora mais.

Eu devo ter feito alguma careta.

-Hey - eu disse - você lembra da ultima coisa que me disse? Você disse que eu deveria ter ficado um pouco triste, eu pareço triste o suficiente pra você? - então eu apontei para a minha camisa manchada de alguma bebida - porra, derrubaram isso em mim.

-Não, mas você me parece um pouco deprimente.

-Ah, cala a boca.

-E essa não foi a ultima coisa que eu disse.

-Que seja - eu disse me jogando no chão e sentando. Talvez eu fosse vomitar, não sei.
Diego se aproximou e me passou o cigarro, que eu traguei e tossi um pouco. Devolvi pra ele.

-Eu fui demitida do meu emprego e larguei a faculdade, agora to aqui de volta pra onde tudo começou, então desculpa se eu pareço um pouco deprimente.

Ele riu e se sentou do meu lado.

-Você sempre vai voltar.

-O que isso quer dizer? - eu realmente não sabia, mas poderia imaginar diversos sentidos pra ela. Sentidos da qual eu não me orgulharia - Aliás, porque você ficou? Não existe nada aqui pra nós...

-Esta é uma boa pergunta - ele virou seus olhos incrivelmente azuis na minha direção e ficou me fitando de forma perturbadora - talvez devessemos discuti-la qualquer dia desses.

-Não, por favor - respondi. Minha cabeça girava muito.

Eu decidi me deitar em seu colo, primeiro porque precisava deitar, segundo porque estava carente, terceiro, porque foda-se.

-Por que você saiu do Mad House? - perguntei. Talvez conversar me mantesse acordada.

-Eu não queria mais aquilo.

-Ah… - tive a impressão de que ele também não falaria muito sobre aquele assunto - Cara, estou tão cansada…

-Eu sei.

-Cara, você gostava de mim? - Eu definitivamente não estava mais pensando.

Ele apenas deu um meio sorriso de deboche seguido de um "feh" habitual.

-Por que… você me deixou ir embora? Eu era só uma criança estúpida, talvez… se você tivesse dito que não, eu nunca teria ido - eu continuei.

-Não importa agora, Juninho.

-É sério, eu pensei muito sobre isso.

-Por que? Isso foi há séculos atrás… - ele sorria tranquilamente, como se não houvesse mágoas.

-Eu só queria entender, sabe, porque foi tão difícil deixar o Daniel ir embora, foi como dar um tiro no peito toda manhã, morrer, e ter que levantar pra tomar outro tiro.

-A gente está falando sobre ele?

-Não! - eu gritei, me apoiando com os cotovelos. De repente, nossos rostos estavam muito próximos, e eu pude ver a seriedade no rosto dele - Eu só…

Então vomitei. Bem em cima de sua calça jeans. Só me lembro dele me levando até o banheiro e segurando meu cabelo enquanto eu vomitava estrondosamente na privada, depois segurou meu rosto com as duas mãos dando uns tapinhas nas bochechas. Acho que eu estava desmaiando. "Fica comigo!" ele dizia. Ai meu Deus, eu me sinto tão mal. "Fica acordada!". Acho que vou morrer. Outro tapinha. Nada. Um jato de água no rosto e eu despertei.

-Deus, me sinto como uma adolescente imbecil que tomou seu primeiro porre - eu disse.

Ele riu, então minha missão estava cumprida. Ele encostou na parede parecendo aliviado.

-Você quer saber porque te deixei ir embora? Porque é assim que o meu amor funciona, eu não queria que você pertencesse a mim, eu queria que fosse livre. Foi por causa disso que me apaixonei por você de qualquer forma… porque você era livre.

Eu nunca tinha ouvido a palavra "amor" e "se apaixonar" sendo usadas por Diego para definir algum sentimento seu, muito menos em uma única frase. Eu estava tão confusa.

-Isso é uma piada? Você não deveria estar contando piadas pra pessoas no meu estado! Meu braço tá dormente, okay?! Eu acho que to morrendo… você não devia ficar fazendo… essas coisas… é sério!

-Não estou brincando…

Ele sorriu, mas a aquela altura não sabia mais definir se era um sorriso de desprezo, de pena, ou sei lá do que.

-Vamos, eu vou te levar pra casa - ele disse, me pegando pelo braço e passando-o sobre seus ombros.

Ele me colocou dentro do taxi e entrou comigo. Alguns minutos depois já estávamos na frente da casa da minha mãe. Ele tocou a campainha.

-Não… não tem ninguém em casa. É dia de jantar fora com o Tsui… - eu sussurrei, porque era o máximo que podia fazer.

-Onde estão suas chaves? - ele perguntou.

-...bolso… da calça...

Ele checou os bolsos da minha calça e tirou o molho de chaves, girou na fechadura, e a esta altura, eu estava debruçada sobre ele, então ele apenas me colocou no colo e me levou pra dentro. Aquela cena me parecia familiar. Eu quis chorar só de lembrar que o Daniel já tinha feito aquilo comigo, e passado a noite ao meu lado. Não, não era justo.

-Pare de chorar, a mamãe vai chegar em casa logo - ele disse, rindo.

-Eu devo ser uma eterna piada pra você, né?

-É, sim… - ele respondeu sem um pingo de remorso.

-Então é verdade? Você me amava mesmo?

-Amava.

-No pretérito imperfeito?

-No pretérito imperfeito. - ele confirmou.

-Por que nunca me disse antes?

-Não sei, porque este sou eu - ele disse, respirando fundo - É melhor eu ir nessa.

-Obrigada. Você sabe. Eu poderia ter morrido. Estou tão bêbada.

-Está. Você vai ficar bem? - Ele perguntou, eu fiz que sim com a cabeça.

Ele se levantou e foi até a porta, então parou um pouco antes de fechar a porta.

-Não, eu menti, não no pretérito imperfeito.

E foi embora. Eu queria deixar ele ir embora? Ouvi seus passos quando descia as escandalosas escadas de madeira. Eu o deixaria ir embora? Ele alcançara o hall de entrada e agora girava a maçaneta. Então foi como uma descarga de adrenalina, eu pulei da cama e desci as escadas correndo.

-Diego, espere! - eu gritei, e ele se virou - Eu também menti… não vai ficar tudo bem.

Ele apenas sorriu e disse:

-Eu já sabia.

Ficamos nos encarando por algum tempo, até que ele disse:

-Então, o que quer fazer?

-Não sei, eu…

-Quer ir pra minha casa?

-Okay.

Quando chegamos, descobri que, bem, ele tinha saído da casa da mãe e agora dividia uma casa com um tal de Jonas (ele não estava em casa). O lugar era bem arrumado por ser habitado por dois homens, talvez mais arrumado que o meu apê.

-Quer tomar um banho? - ele perguntou. Eu fiz que sim com a cabeça, então ele me indicou o banheiro.

Tentei tirar a roupa começando pela camiseta, mas algo deu muito errado e eu fiquei entalada. Diego percebeu e me segurou pelos braços, puxando a camiseta calmamente para cima. Ele não disse nada, apenas continuou a tirar a minha roupa, o que foi um pouco erótico, só que ele não fez nada. Apenas me colocou dentro do box e ligou o chuveiro. Depois trouxe uma toalha limpa e algumas roupas. Bem, não era como se ele nunca tivesse me visto antes. Só que eu não sabia o que ele estava pensando e meus pensamentos corriam soltos…

Quando saí, ele já tinha trocado as calças vomitadas e estava deitado na cama, lendo alguma revista, acho.

-Você se importa se eu deitar? - perguntei, só em caso. Ele apontou para a cama como se dissesse “seja bem vinda” e eu deitei do lado dele de barriga pra cima - e eu acho que não consigo fazer nada além disso hoje.

-Eu não costumo me aproveitar de garotas completamente debilitadas.

-É mesmo? Você não parecia se importar, há alguns anos atrás… - eu disse, mas dormi imediatamente depois disso.

Quando acordei, na manhã seguinte - a cabeça latejando,é claro - Diego não estava, mas tinha deixado o café da manhã pronto em cima da mesa. Cereal com algumas frutas, iogurte, café com leite… “Saudável”, pensei. Dei uma olhada na casa. Não era pequena nem grande, e a decoração era simples. No canto da sala, um case de guitarra, ou baixo, muito provavelmente. Em cima da mesinha de centro, um notebook aberto com algumas pilhas de papéis e livros, muitos livros na estante. Ele não me parecia o tipo de cara que gostava de estudar, mas talvez esta fosse uma das coisas que não sabia sobre ele.

Estava terminando o café da manhã quando ele chegou com uma sacola da farmácia, que me entregou “Aspirina” ele disse. Eu agradeci. Dei uma bela reparada: ele vestia calça de moletom e chinelo. Acho que nunca tinha visto ele tão a vontade.

-Então, o que você faz da vida agora que não toca mais na banda? - perguntei.

-Eu traduzo livros, basicamente - isso explicava a pilha de papéis... Manuscritos - Eu trabalho de casa, o que é ótimo, porque posso me dedicar a outras coisas também.

-Tipo?

-Tipo música - ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo - e você?

-Atriz numa companhia de teatro de Londres… era pequeno… e houve “corte de gastos” o que explica meu status atual de “desempregada”. Eu estava odiando tudo aquilo, de qualquer forma - eu disse colocando a louça na pia e lavando o que tinha acabado de usar.

Quando terminei, bati as mãos em sinal de “trabalho cumprido” e perguntei:

-Então, o que temos pra hoje?

-Quer dar uma volta?

Fiz que sim com a cabeça, vestimos os tênis e fomos para a garagem. Percebi que tinha uma moto alí que não me lembrava de ter visto no dia anterior.

-Essa moto… tava aqui ontem?

-Não, eu fui buscar na casa do Brunão hoje de manhã… Não podia arriscar te levar de moto pra casa ontem naquele seu estado deplorável.

-Oh, obrigado pela parte que me toca.

Ele me entregou o capacete e subimos na moto. Fazia um bom tempo que não me sentia, digamos, tão confortável. Estava usando as roupas de Diego, e não me importava. Estava cagando para o que as pessoas achavam. Existia algo naquela cidade que tinha me incomodado por anos a fio, e eu sabia que eram aqueles olhares de estranheza das pessoas, e agora, eu não me importava mais. Me senti livre.

-Não sabia que era tão bom no inglês - eu comentei, tentando puxar assunto. Estávamos andando pelo centro da cidade e tomando um sorvete bem gordo - Eu sofri muito para me comunicar em Londres nos primeiros meses. Quase ninguém me entendia, nem entendia ninguém, nem mesmo o Louis, que além de tudo, era francês. A gente não entendia o que o outro dizia, mas pelo menos, pra compensar, a gente transava muito. Só ficou estranho quando ele me pediu em casamento, então percebi que a comunicação estava bem lesada mesmo.

O Diego ficou rindo da minha verborragia, ou rindo apenas de mim mesmo.

-Então você namorou um cara francês, quão clichê isso pode ser…

-É, sei lá… esses franceses tem alguma coisa que eu não sei explicar… haha.

-Eu me tornei bom em inglês porque queria entender as letras das minhas bandas preferidas.

-Faz sentido.

Era uma tarde de domingo agradável e eu comecei a me preocupar com o que faria da minha segunda-feira, o que não era bom, porque eu já não tinha mais um plano do que fazer da minha vida no geral. Voltamos para casa e eu conheci o Jonas, que era um cara bem legal apesar de super tímido. Ele foi para o quarto e eu jogava video-game enquanto Diego trabalhava um pouco em seu notebook.

-Está entendiada? - ele perguntou e notei que me observava.

-Não! Só estou, hum, preocupada… Não quero te atrapalhar nem nada.

-Pode ficar o quanto quiser. Jonas vai ficar feliz em estar perto de uma presença feminina, este deve ser o mais perto que esteve de uma garota em meses.

-Wow - eu respondi - Mas, hum, se você diz, então vou abusar de você mesmo.

Primeiro, não percebi o que tinha feito. Não pensei antes de falar, mas depois notei que talvez, incoscientemente, eu estivesse querendo dizer aquilo com segundas intenções, TALVEZ.

Ele estreitou os olhos e depois fechou o note, dizendo: “Docinho, você pode abusar de mim o quanto quiser”. E eu fiquei lá parada, o jogo rolando na tevê, muitos gritos, e então ouvi um “game over”. Olhei do controle para o Diego, que continuava impassível, me fitando daquele seu jeito genuinamente perturbador. Eu queria fazer aquilo? Eu estava prestes a fazer aquilo? Eu estava preparada? Era só sexo. Mas era só sexo? E quanto a aquela confissão amorosa? Minha cabeça entrou em pane. Ele percebeu e riu.

-Você é tão fácil, eu poderia fazer isso pra sempre.

-Poderia? É, acho que poderia… - eu sussurrei mais pra mim mesma.

-Se te incomoda, posso colocar um colchão pra você aqui na sala.

-Não me incomoda. Sinceramente, queria dormir abraçada com alguém… Não, queria dormir abraçada com você. Mas pode ser que seja pedir demais.

Ele deu de ombros, o que foi o suficiente para mim. Ele arrumou a cama e foi escovar os dentes. Eu tentei me aconchegar o melhor possível antes dele chegar. Então ele deitou e me abraçou na posição “conchinha” e mesmo tendo ouvido falar que era uma péssima posição e tudo mais, foi o que ele fez. E dormiu, ou pelo menos eu pensava que sim. Algumas horas depois, ele disse:

-Está acordada?

-Tô - respondi - Não consigo dormir… tenho pensando muito sobre amanhã e quão perdida estou.

Então eu me virei para ele e ficamos frente a frente.

-Não se preocupe demais.

-Se você diz… - respondi, ainda desesperançosa.

-Apenas… - e ele acariciou meu rosto, colocando meu cabelo atrás da orelha - espere para ver.

-Desde quando você diz esse tipo de coisas… hum, otimistas?

-Eu sou uma pessoa otimista, você não sabia?

-Não é, não.

-Você tem razão. Na verdade eu queria dizer que vai ser uma merda por muito tempo, muito tempo mesmo, e você vai se odiar por ter desistido de tudo, e vai viver uma vida cheia de arrependimentos e remédios pra depressão.

Eu quis rir mas estava um tanto quanto cansada para isso, então apenas sorri. Fiquei parada enquanto ele enrolava meu cabelo em seus dedos, imaginando se ele estava fazendo aquilo para me fazer sentir melhor ou porque ele simplesmente queria ficar comigo.

-Eu… - comecei, criando coragem - isso não deveria ser tão difícil...

Então Diego afastou a mão de mim, como se soubesse sobre o que eu estava pensando. Acho que ele estava tentando me seduzir. Não, eu tinha certeza. E Deus, como eu queria aquilo, talvez nunca tivesse deixado de querer. Eu podia não saber o que sentia, emocionalmente falando, mas eu queria aquilo, então o beijei. E ele me beijou de volta, acariciando as partes do meu corpo que estavam expostas, e depois enfiando a mão por debaixo da camiseta.


Ele me salvou naquele dia da festa. Não porque eu estava quase desmaiando e poderia ter morrido, mas porque ele olhou pra mim. E eu finalmente pude compreender o sentido de todas aquelas coisas. Ele era capaz de me amar e de confiar em mim, de um jeito que eu nem mesmo merecia mas que decidi aceitar.
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