sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 5

Deixe-me contar um pouquinho sobre esse capítulo. Eu decidi ousar, decidi imaginar além do que jamais fizera, quer dizer, eu de vez em quando tinha algumas ideias mas nenhuma delas me parecia concreta. Não que esta ideia seja totalmente concreta. Gosto de imaginá-la como um "universo alternativo". Dentro de tantas possibilidades no universo do Vidas, eu escolhi esse para escrever (eu gosto de imaginar outros finais, mas enfim, espero que gostem desse).

Por alguma razão, não foi fácil escrever sobre isso, e o texto acabou ficando longo, mas quer saber, eu curti muito o que eu escrevi, do jeito que escrevi, e acho que fez algum sentido, mesmo que aparentemente não haja. Para aqueles que ficarem um pouco chocados/curiosos: CALMA! Tem continuação, que inclusive já está pronta, só falta postar.

Leia a primeira, segunda, terceira e quarta parte também =)



Doze anos depois

Fazia exatamente sete anos que eu não via o Jay quado ele entrou pela porta do quarto de hospital, o rosto carregado, as olheiras profundas. Ele parecia… mais velho. O que me deixava triste, porque ele sempre fora tão jovem e cheio de vida. Fiquei imaginando o tipo de vida que ele levava para acabar assim.

-Você sabia - eu disse, ainda segurando a mão de nosso pai, que jazia naquela cama, desacordado.

-Eu sabia… - ele respondeu se aproximando. Ele se sentou na cadeira do outro lado da cama, observando aquele homem tão franzino, ou o que havia restado dele.

-Você poderia ter me contado, e eu teria voltado correndo. E agora, eu me pergunto se vou vê-lo acordado mais alguma vez… - eu disse.

-Eu sinto muito.

-Você sente? - eu perguntei, começando a me exaltar - Não importa as diferenças que tivemos nos ultimos anos, ele É meu pai também!

-Eu pensei que…

-Não importa.

-Eu perdi seu número. A mamãe me passou, mas eu perdi o papel.

Eu deveria ter dito o que pensei naquele momento, que ele tinha perdido muito mais do que um mero pedaço de papel, e eu não sabia mais quem era aquela pessoa na minha frente, aquela pessoa que admirei durante toda a minha infância e adolescência. Eu queria que ele brilhasse mais e mais, e que o mundo conhecesse o Mad House. Ele merecia isso. Mas o Mad House terminou, e tudo mudou. Eu fui estudar em Londres, passei três anos no curso de artes cênicas, atuei em algumas peças, e quando percebi, nossos mundos já eram outros…

Fitei aquelas mãos tão enrugadas e a fita que cobria a entrada do catéter. Fiquei imaginando quão aquilo poderia doer, numa pele tão frágil quanto a de meu pai. Ele lutara contra o câncer por doze anos, de quimeoterapia a quimeoterapia, passando por uma fase em que pensamos que estivesse curado, para depois piorar definitivamente. Eu gostaria de ter estado ao seu lado todo o tempo, e eu sabia que não poderia simplesmente culpar Jay por ter sido uma filha mediana. Ele estava ruindo. Meu pai estava desaparecendo diante de meus olhos e isso machuca pra caralho.

Neste momento, uma criança de mais ou menos cinco anos entrou no quarto correndo e então parou em frente de Jay, fitou-o por alguns segundos e então disse:

-Você que é o meu tio Jay?

Ele ficou parado sem reação, a boca semiaberta, talvez ele quisesse dizer alguma coisa mas não sabia o que. Então ele olhou pra mim.

-Você… você teve uma…

-O nome dela é Victoria. Ela tem cinco anos.

-Mas mãe! Eu vou fazer seis no mês que vem! - Victoria protestou, fazendo balançar suas maria-chiquinhas. Ela se aproximou e sentou no meu colo - mãe, abre o sorvete pra mim?

Jay apenas ficou observando enquanto eu abria o pacote do picolé e entregava a ela.

-Quem… é o pai? - Jay perguntou ao mesmo tempo que um homem de seus trinta anos, cabelos castanhos, entrava pela porta carregando um ursinho de pelúcia amarelo.

-Querida, você esqueceu o Robert lá na cantina, se depois vier reclamar que perdeu… - ele parou ao perceber que Jay estava ali - Ah, você.

Jay ficou olhando dele para mim, muito chocado para falar qualquer coisa.

-Sério? - Ele perguntou com um tom de raiva e incredulidade - SÉRIO? Tinha que ser ele?

Diego pegou Victoria no colo e foi até a porta.

-Vou levar a Vic pra fazer um passeio, assim vocês podem, hum, conversar em paz.

Quando Diego saiu, eu percebi que simplesmente muita coisa tinha acontecido nesse meio tempo para poder explicar a Jay. Eu também acharia estranho, eu acharia a coisa mais improvável do universo.

-Eu ouvi dizer que você vai lançar um álbum solo… - tentei mudar de assunto.

-É, sei lá, acho que sim… estamos discutindo isso lá na gravadora, mas há grandes chances que sim, mas cara, o Diego? Vocês não tinham terminado? Você não namorou um cara depois dele e ficou deprimida pra caramba? Não me diga que… - ele estreitou os olhos, pensativo - ele foi lá te consolar?

-Não, Jay, isso foi tipo, muito antes. Eu ainda estava na escola.

Jay passou a mão na cabeça, confuso.

-Então - ele continuou - então sei lá.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Era possível ouvir apenas o gotejar o soro e a respiracão fraca e ofegante de Henrique.

-Ele não vai aguentar muito tempo, não é? - Jay perguntou. Eu apenas fiz que não com a cabeça. Uma lágrima escorreu pelo rosto dele, mas a enxugou com a manga da jaqueta antes que ela caísse - Caramba… Esse velho deu um belo trabalho pra gente e agora tá indo embora sem mais nem menos.

-Doze anos… foram doze anos, não é fácil. Talvez ele esteja dando graças a Deus que está terminando. Mesmo assim, eu gostaria que ele tivesse conhecido a Victoria.

Não muito depois as enfermeiras chegaram dizendo que o horário de visita tinha acabado e que Henrique seria transferido para a UTI. Não pude conter as lágrimas, mas não queria que Vic me visse daquele jeito, eu precisava ser forte, então deixei que Jay fosse na minha frente e apenas esperei no corredor. De lá ainda podia ouvir ele se aproximar de Victoria:

-Olá, acho que não me apresentei. Eu sou Jay, irmão da sua mãe.

-É eu sei - ela respondeu com a sua confiança infantil - Eu sou a Victoria e esse aqui é meu papai.

-É, eu sei - ele disse, rindo - Eu e o seu pai somos… velhos amigos…

-É verdade??? - Vic parecia empolgada.

-É sim, ele nunca contou? A gente tocava na mesma banda, ele era o baixista e eu o guitarrista.

-Noooossa… - adorava quando a Vic falava um "nossa" tão comprido - que legal! Não sabia que o papai era tão legal. E você parece ser muito legal também.

-Somos uma família muito legal, não acha? - Ele disse.

-Mas a mamãe é a mais legal de todas. Ninguém supera, tá?

-Assim você deixa o papai triste, querida… - Diego se fingiu de magoado.

Ouvi ela gritar "Nãoooooo!" e depois devem ter se afastado pois não conseguia mais ouvir o que diziam. Sem querer, eu estava sorrindo, porque apesar de tudo, eu ainda tinha em quem me apoiar. Meu pai estava indo embora, mas eles ficariam. Minha família.

Algum tempo depois, Diego apareceu na porta da cantina e me viu sentada no chão abraçando as próprias pernas. Ele se sentou do meu lado e apoiou minha cabeça em seu ombro.

-Está tudo bem? - Ele perguntou.

-Tá… tá sim - eu respondi, a voz rouca.

Ele sabia que não estava tudo bem, a gente tinha, assim, um código secreto para as coisas. Eu não precisava dizer, ele apenas sabia. Assim como eu sabia o que se passava com ele. E ele sabia muito bem o que era perder um parente…

-A Vic? - perguntei.

-O Jay está cuidando dela. Estão conversando… Sabe, acho que vão se dar muito bem, afinal eles têm a mesma idade mental.

Eu ri. Diego me fazia rir nas horas mais improváveis, e talvez fosse por causa disso que tivesse aprendido a amá-lo também.

-A sua mãe ligou… - ele disse, me tirando dos meus devaneios - perguntou se vamos almoçar com ela amanhã? Ela disse algo sobre o Tsui estar preparando o churrasco...

-Bom… - eu respondi - acho que não temos muito escolha, não?

Ele riu, embalando minhas mãos na mão dele, e me levantando. Ele enxugou meu rosto molhado, me beijou e disse "Vamos".

Talvez, se não fosse por ele, eu não tivesse sobrevivido a nada daquilo. À doença do meu pai, aos meus dramas profissionais, à minha vida em Londres, longe de casa por tanto tempo… talvez ainda estivesse perdida entre os papéis que tomava em cada peça de teatro.

Nunca vi Norah tão feliz quanto naquele dia, reencontrando a neta e tendo seus dois filhos ao seu lado de uma vez só. Tive medo de que ela mimasse Victória demais, mas não importava, porque elas não se dariam àquele luxo tão cedo novamente. Diego ajudava Tsui na churrasqueira e Jay apenas observava.

-Juno, não importa o que diga, não poderei me acostumar com isso tão cedo… não acredito ainda que teve uma filha… ainda mais com ele - ele disse a ultima palavra com certo asco.

-Ah, Jay, por favor, supere. Aconteceu, você quer que eu faça o que?

-Irmãzinha… você cresceu, né?

-Caso ainda tenha alguma dúvida: sim, eu cresci.

Ele fez algum grunhido não-identificável enquanto desenhava com giz de cera.

-Tio! Não é assim, tá tudo errado! - Vic disse, tirando o giz da mão dele.

-Como assim, tudo errado?!! - ele parecia um pouco bravo, mas não mais que Vic, que levava aquela brincadeira muito a sério.

-É assim, olha! Quem nem eu fiz - ela mostrava seu desenho super elaborado de uma casinha com uma família e um carro.

-Mas eu não fiz assim? - ele mostrou seu desenho tosco de bonecos de palito.

-Estou vendo que puxou para a vovó - Norah disse orgulhosa do desenho de Vic, que estufou o peito, confiante.

-Viu só? - Ela disse, mostrando a língua para Jay.

Mais tarde todos já tinham comido o suficiente para uma semana inteira, Vic dormia na sala deitada no peito do Diego. Eles ficavam muito fofos daquele jeito. Tsui estava jogado na poltrona e Norah balançava na rede da varanda. Apenas eu e o Jay estávamos acordados, colocando a louça na lavadeira.

-Me desculpe por não ter falado com você por todo esse tempo - Jay parecia se sentir culpado.

-Fui eu que não falei com você.

Ele riu.

-Ela é ótima… a Vic. Vocês tem feito um ótimo trabalho, eu acho.

-É, acho que sim… - respondi.

-O Diego mudou… foi por causa dela?

-Acho que nós dois mudamos por causa dela, mas o Diego sempre foi assim, era só a gente que não queria enxergar.

-Você acha?

-É, eu e você… a gente sempre estava ocupado demais pra entender.

-Bom, ele até cortou aquele cabelo ridículo de headbanger - Jay disse, e eu percebi que por mais que ele tentasse, não conseguia esconder o ódio que sentia. Do que, eu não sabia - Hey… você já alguma vez se perguntou que diabos está fazendo da sua vida?

-Já… eu me pergunto isso todos os dias - respondi.

-Quer dizer, cara… passei a maior parte do tempo fazendo turnês, ia de um estado a outro, sem parar. Estou ficando velho… e cansado. Talvez, eu não sei…. Agora que vi você, e você com uma filha, sei lá, isso me deixou um pouco preocupado.

-Preocupado por que? Ter filho não é a coisa mais simples do mundo… na verdade, é bem complicado. Eu nunca pensei sobre isso, eu acho que nunca teria parado para pensar, apenas aconteceu. - eu disse, colocando o ultimo prato na lavadeira - Eu também queria o mundo para mim, Jay, assim como você. Isso não é errado.

-Eu acho que… me sinto sozinho. Eu tento não pensar sobre isso, mas é a verdade. Mesmo rodeado de pessoas, amigos, de fãs, mesmo assim me sinto sozinho.

Eu coloquei o braço pelo ombro dele, puxando-o para perto de mim.

-Deixe-me contar um segredinho. Estamos todos pelo menos um pouco sozinhos nesse mundo. Alguns mais, outros menos, mas a verdade é que "estar sozinho" é uma condição natural da qual não devemos ter medo. Temos que usar isso a nosso favor, Jay. As pessoas morrem o tempo todo, olhe para nosso pai… É tudo tão triste e solitário… Mas precisamos nos agarrar as coisas que realmente valem a pena. A Vic vale a pena. O Diego vale a pena. Eu vivo porque, de alguma forma, eu posso fazê-los feliz, e ser feliz no processo. Eu não estou feliz o tempo todo, não faria sentido, mas existem horas que me lembro e me sinto totalmente sortuda por isso.

Jay me fitou por um tempo infinito, como se tentasse absorver todas aquelas palavras. Eu não sabia se ele compreendia, ou se algum dia compreenderia. Existe um momento em que tentamos imaginar nossas vidas diferentes. Eu deveria ter viajado mais. Eu deveria ter feito mais. Eu deveria ter estudado mais, conhecido pessoas importantes, eu poderia ter deixado uma marca mais relevante no mundo. A gente poderia tantas coisas e nos vemos presos nas responsabilidades do dia-a-dia, quase como se fossemos escravos de uma vida fantasma, de algo que não controlamos. Existiram dias em que eu queria morrer. Eu simplesmente não podia suportar. Achei que tudo estivesse perdido, que tudo fosse... pesado demais. Mas eu continuei. Invariavelmente, dias bons chegaram, e também se foram da mesma fora que vieram: sem aviso prévio.

Mas também teve dias em que larguei tudo aquilo que obviamente não me fazia bem. Deixei ir embora, sem um pingo de dó. E foi por causa dessas coisas que eu não poderia me arrepender das escolhas que tinha feito. Eu fiz do jeito que eu queria, mesmo que isso significasse seguir os caminhos mais errados. Eu não poderia culpar mais ninguém além de mim mesma por todas as merdas, e que por pior que estivesse, sempre existiria o fim do poço: e dele eu não poderia passar.

E assim tinha sido minha vida até então: um apanhado de decisões ruins seguidas de boas jogadas. Se eu voltasse seis anos atrás, eu teria escolhido não ter filhos, mas quando olhava para Victoria dormindo tão tranquilamente, um pedaço do céu no inferno que era nossas vidas, eu tinha certeza que ela era a melhor coisa que eu já tinha feito.



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