sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 4

Aqui vai a continuação da side story, meu amigos, que eu decidi postar afinal... talvez eu continue postando. O que vocês estão achando? =P

Leia a primeira, segunda e terceira parte também =)




Um mês depois


As coisas começaram a mudar de verdade quando descobri sobre a doença do meu pai e sobre todas as coisas que ele havia escondido de mim… as coisas que havia feito por Mônica e para que Mateo nunca mais fizesse parte de nossas vidas. Estava tudo tão diferente que nem mesmo as cores pareciam as mesmas. Estava tudo tão… claro. De repente, me senti tão pequena e insignificante diante do mundo.

-Eu te dei uma viagem de férias, então o que faz ainda por aqui? - meu pai perguntou. Ele estava sentado atrás daquela mesa enorme de mogno, e parecia ainda mais franzino sentado na sua incrível cadeira reclinável.

-Eu sei…

-Então, o que está esperando?

-Queria saber… você vai fazer a quimioterapia?

-Vou, vou - ele respondeu, inquieto - Vou começar no mês que vem. Agora você já pode ir.

Fiquei ali parada, sem saber o que dizer, olhando enquanto ele assinava alguns papéis.

-Por que… você me deu todas essas coisas? Essa viagem de férias, um curso no exterior, uma conta internacional…?

-Por que? Porque eu posso - ele respondeu, sorrindo - Aqui, entrega isso aqui pra sua mãe… os papéis do divórcio.

Ele me entregou um envelope de papel pardo e afundou na cadeira, suspirando.

-Pai… - eu o chamei, então ele levantou a cabeça, receptivo - eu sinto muito.

E não sabia exatamente pelo que eu sentia muito. Talvez por ter sido uma filha tão difícil, e com notas ruins, que vivia se metendo em encrencas e indo para as festas mais erradas do universo. Ou talvez sentisse muito pelo fato dele ter câncer, mesmo sabendo que a culpa não era minha. Era a vida, essa vadia ingrata e inescrupulosa. Mas meu pai olhava pra mim com aquele mesmo ar confiante de quem não tinha mais nada a perder e ao mesmo tempo tivesse o controle sobre o universo. Sim, ele fazia porque ele podia. O poder é uma coisa estranha...

Peguei o envelope e coloquei na mochila, e quando estava saindo pela porta, me virei:

-Só tem mais uma coisa… eu quero mudar de colégio. Eu quero começar de novo em outro lugar.

-Você tem certeza? Mesmo faltando um ano para se formar?

-Sim… eu tenho certeza.

Ele apenas assentiu com a cabeça.

Eu saí de seu escritório me sentindo tão confiante como não me sentia há semanas. Pensei comigo mesma: quer saber? Foda-se. Foda-se as pessoas daquela escola (menos a Suzana). Foda-se a depressão. Eu estava cansada de me sentir miserável por alguém que no fundo nem conhecia direito. Quem era ele? Alguém que inventei na minha cabeça, uma imagem da perfeição, alguém que estaria lá apenas enquanto fosse conveniente. Ele estava lá e me fez confiar nele a ponto de contar coisas que não havia contado nem mesmo para minha melhor amiga. De repente, eu senti raiva por ter dado tanto de mim mesma e ter recebido apenas… ilusão. Eu gostaria de ter prestado mais atenção aos sinais… Gostaria de não ter sentido o que senti…

-Pra onde você está indo? - minha mãe perguntou ao me ver arrumando as malas de um jeito um pouco descuidado demais pro seu gosto.

-Machu Pichu. Ganhei a viagem do papai.

-Ah… - ela respondeu - Aliás, eu estou me mudando para a casa do Tsui...

-Bem lembrado - eu disse tirando o envelope da mochila e entregando a ela - Parabéns.

-Querida… eu sei que foi muito repentino, espero que entenda…

-Você sabia que ele tinha câncer - eu disse, rudemente.

-Eu quis contar, mas ele não deixou. Ele queria contar ele mesmo - ela disse pegando minha mão - Eu sei que isso nos pegou completamente desprevinidos, mas você pode contar comigo pra qualquer coisa. Eu só queria que soubesse disso.

Eu peguei a mesma mão dela que segurava a minha e a afaguei. Ela merecia mais do que algumas palavras malcriadas de sua filha.

-Mãe… as coisas vão melhorar… mas agora preciso ir. Eu preciso fazer isso, me afastar por um tempo, sei lá.

-Esse garoto… ele realmente fez um estrago - ela disse, compadecida do meu sofrimento.

Eu apenas sorri. Minha mãe fora uma vítima por tanto tempo, ou pelo menos era assim que eu a via. Agora eu sabia que todos nós tinhamos pelo menos um pouco de merda sobre nós mesmos, coisas das quais não nos orgulhávamos, mas puta merda, era isso o que fazia da gente humanos. Sabe de uma coisa que me tornava humana? Minha raiva. Eu sentia tanta raiva, primeiro do Daniel, mas que culpa ele tinha por eu ter me apaixonado? E antes dele, tinha raiva do meu pai. E agora, eu sentia raiva de mim mesma, porque eu sentia raiva, num ciclo interminável de raiva eterna.

Mas eu fiz absolutamente nada para combater minha raiva, eu apenas a abracei, e me permiti sentí-la a cada instante, por que sentir era melhor que nada. E senti as coisas mais impressionantes naquela viagem. Eu senti a brisa de uma antiga civilização, senti os gostos mais peculiares, e senti pessoas que nem ao menos falavam a minha língua. Mas além de tudo, fui capaz de encontrar um pouco de paz dentro do meu universo de ódio. Quanto mais eu lutasse contra essas coisas, mas eu sofreria, então apenas fiquei alí e senti.

E quer saber? A viagem uma hora acabou, e as pessoas que conheci foram embora - para muito longe. Eu nunca mais as veria de novo. Então eu me senti leve novamente, porque as coisas simplesmente vão embora. Tudo isso é fugaz, e acaba. Mas Henrique já deveria saber disso, afinal era por isso que ainda podia sorrir.
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