domingo, 19 de janeiro de 2014

Side Story "Depois" parte 3

E aqui vai a terceira parte da side story. Leia a primeira e a segunda parte também ;)


Sete dias depois

Era sábado a noite e eu não tinha nenhum plano a não ser terminar de assistir uma temporada de Doctor Who. Suzana insistiu em me acompanhar mas eu não deixei. Só porque a amiga dela estava na maior bad do século não queria dizer que ela precisava desperdiçar um sábado nisso.

Ouvi vozes vindo do andar de baixo e decidi descer para checar, já que eu e a vovó morávamos sozinhas. Dei de cara com um Jay muito animado - é verdade, eles tinham ficado em segundo lugar no Festival Musical e estavam assinando um contrato com uma gravadora. Eu deveria estar feliz por ele.

-Jesus, irmãzinha, faz quanto tempo que não lava esse cabelo? Acho que dá pra fritar um ovo nesse óleo.

-Oi, Jay, como vai? - Retruquei ironicamente - Oi, Pedro - eu disse me virando para ele, e ele respondeu com outro "oi" baixinho.

-Muito melhor agora que você não tá mais namorado aquele imbecil - Jay respondeu com a maior sensibilidade do mundo.

-Vai se foder, Jay - eu disse pegando mais um copo de coca-cola e indo pra sala. Ele tinha que me lembrar.

Liguei o Playstation e comecei a jogar um jogo de corrida qualquer. Nesse momento, alguém saiu do banheiro - eu pude ouvir o som da descarga - e sentou-se do meu lado, pegando o outro controle.

-Nem vem - eu alertei.

-Eu não disse nada - Diego respondeu.

-Mas estava pensando. Você pensa muito alto - eu disse rispidamente. Simplesmente não estava no humor.

-Vamos jogar multiplayer.

-Jesus! - Me exaltei - Vocês não tem casa, não?

Então a vovó apareceu na sala com um bolo enorme de cenoura com cobertura de chocolate e entregou um pedaço para cada um.

-Crianças, parem de atormentar a pobre menina - acho que ela estava com pena de mim - e sei lá, arranjem o novo namorado pra ela, assim ela não fica em casa o dia todo. Faz uma semana que não posso trazer o Grupo de Leitura da Jane Austeen pra cá.

Ela disse e então voltou para a cozinha, enquanto um Diego do meu lado ria tanto que voavam migalhas de bolo pelo tapete todo.

-Cara, não tem graça - eu disse, ainda um pouco chocada.

-Não, Juno, isso é totalmente hilário.

-Você está com inveja? - provoquei - Por que quando a gente terminou eu fiquei totalmente de boa?

Ele parou de rir, mas sorriu de um jeito que me incomodava. Como se eu fosse uma idiota por achar isso. Então ele se levantou, colocando o controle delicadamente de volta à mesa de centro e disse:

-Não, não estou com inveja. Apesar de achar que você poderia ter ficado ao menos um pouco triste.

Agora, o que aquilo queria dizer? Ele apenas pegou suas coisas e foi embora. Isso, apenas vá embora!

Estava começando a ter aquela sensação de que não estava acompanhando o mundo a minha volta, que eu estava dormindo enquanto a vida acontecia, porque eu simplesmente não enxergava o que as pessoas queriam dizer, ou o que tudo aquilo significava. Será que eu era assim tão tapada, tão cega? Pela primeira vez eu pensei que talvez - TALVEZ - O Diego tivesse gostado ao menos um pouquinho de mim. Talvez ele tivesse ficado chateado também quando fui lá e sugeri que terminássemos. Talvez…

Quando voltei para o quarto, o episódio do Doctor Who rolando no fundo, foi quando parei para pensar que pela primeira vez eu era a "outra" pessoa. A pessoa chutada. Na verdade, este era um jeito terrível de se dizer. Eu sempre fui a pessoa que tomava as decisões, que não se deixava ser dominada, só que agora tinha que lidar com algo que estava fora do meu controle, com algo que não escolhi. Era frustrante. Só agora, estando do outro lado, que pude entender a sensação de impotência diante da vida, e o peso que nossas decisões têm sobre a vida das pessoas que nos rodeiam.

Ouvi duas batidas na porta. Eu respondi "entra" e então Jay abriu a porta e enfiou a cabeça pela fresta.

-Hey, foi mal - ele parecia sincero - eu não deveria ter dito aquilo.

-De boa… - respondi. Estava acostumada com esse tipo de coisa vinda do Jay, depois de uma vida inteira de perseguição - E parabéns, você sabe, pelo festival. Eu estou realmente feliz por vocês.

Ele sorriu. No fundo - bem lá no fundo - ele era um irmão bacana.
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