sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 2

Aqui vai a continuação da side story que comecei no post anterior. Leia a primeira parte aqui.


Dois dias depois

Eu não queria ir para a escola, não queria ter que lidar com pessoas naquele momento, porque eu não podia me responsabilizar por nenhuma reação bizarra que eu tivesse, e eu me sentia triste em saber que poderia machucar alguém. Mas não era tristeza, era culpa. Por mais que eu quisesse mudar, eu nunca deixaria de não me importar com aquelas pessoas. Eu simplesmente não me importava e pronto. Era isso o que ele tinha feito comigo, eu passei a me sentir culpada por coisas que ainda nem tinha feito, mas que poderia fazer e que de alguma forma parecia... errado.

Me lembrei das aulas de teatro, que tinha que ensaiar para a peça de final de ano e antes que pudesse me sentir ainda mais culpada por deixá-los na mão, eu vesti uma roupa qualquer e peguei o ônibus pra escola com a Suzana.

-Quem te ligou ontem? - Suzana perguntou.

-O que?

-Ontem antes de dormir você disse que alguém te ligou de madrugada, quando fui perguntar quem era, você já tinha capotado...

-Ah - eu disse tirando o celular da mochila e abrindo o registro de chamadas: Suzana, Suzana, Suzana e então um número não identificado - deve ser esse daqui.

-Parece ser um número de telefone público.

Então pensei um pouco. Quem me ligaria de um telefone público? Disquei o número de volta e depois de uns dez toques, uma voz grave atendeu: "Departamente de polícia". Eu desliguei instantaneamente.

-O Mateo foi preso - eu disse, finalmente me lembrando da conversa - Ele me ligou ontem para dizer que tinha sido preso, e ele disse algo sobre… meu pai estar envolvido, e…

-Peraí - ela me interrompeu, confusa - Ele sabe o que aconteceu com sua amiga Mônica?

-Não exatamente, mas ele tinha fotos… fotos dela com o bebê. Ela parecia bem, quer dizer, acho que só isso importa no final.

-Juno… - ela segurou minhas mãos com força - O que ele fez foi imperdoável, tanto com você quanto com a Mônica. Mas agora ele foi preso. Ele vai pagar por todas as coisas que fez.

-Você está certa - eu disse para encerrar o assunto e sorri. E o pior de tudo era que eu não tinha mais certeza de que ele tinha feito mesmo o que achava que tinha feito, e não sabia mais se queria saber. Eu queria acreditar que a prisão dele fosse suficiente.

Mônica tinha ido embora por algum motivo, e qualquer que fosse, ela tinha decidido não contar para nenhum de seus amigos. Agora ela tinha um filho e parecia estar bem. Não existia mais nada que eu pudesse fazer… por mais que eu quisesse encontrá-la, que bem isso poderia trazer? Talvez ela estivesse tentando esquecer…

-Eu não sei se posso esquecer tudo isso… - sussurrei, mas ninguém escutou. De repente me vi sozinha no corredor vazio da escola. Não sabia nem como tinha chegado alí. Peguei os livros no armário e fui para a primeira aula. Se não tivesse feito esse caminho tantas vezes no último ano a ponto de ser automático, talvez nunca tivesse chegado à sala, de tão entorpecida que estava.

Quando me dei conta, a sala já estava vazia, e senti uma mão tocando meu ombro. Era Suzana.

-Já é o intervalo. Estou indo pra biblioteca, você quer ir junto?

-Não, tudo bem, pode ir… acho que vou tomar um ar lá fora.

Meus pés caminharam sozinhos - e eu tenho certeza disso - até o ginásio, onde alguns alunos lanchavam na arquibancada enquanto um bando de garotos jogava futebol. Acho que eu queria ver como ele estava, se estava sofrendo também, porque não era justo que eu tivesse que sentir isso sozinha. Mas eu nunca saberia dizer se a cada chute forte, era raiva que ele sentia ou se estava apenas querendo jogar bem.

Vi a bola voar diretamente para os expectadores. Todos pararam de jogar para esperar alguém devolvê-la. Neste meio tempo, Daniel esperava no escanteio, colocou o cabelo pra trás, e então recebeu a bola, girou-a, respirando fundo. Depois olhou para cima, exatamente na minha direção, quase como se soubesse o tempo todo que eu estava ali. Eu não soube o que aquele olhar queria dizer, apenas senti um aperto no coração e uma ardência no rosto, uma vontade de chorar. Quando ele finalmente desviou os olhos, eu pude respirar. Não... por que eu estava me torturando daquele jeito?!

Encontrei com Suzana no corredor voltando para a sala e ela conversava animadamente com alguém que eu reconhecia vagamente. Seu nome era Bob, acho.

-E aí - ele disse.

-E aí - respondi com a respiração pesada.

-Eu fiquei sabendo que vocês, é…

-É, a gente não tá mais junto - eu tentei dizer de uma forma que não parecesse tão deprimente quanto "levei um pé na bunda", e nem que desse a entender que eu estava "ok" com aquilo.

-Sinto muito - ele disse com o olhar baixo, como se sentisse muito mal por aquilo.

-Sente muito pelo quê? - Perguntei, confusa - Ninguém morreu.

-Ah, sei lá. Ele gostava muito de você, eu sei disso. Sei lá o que deu nele.

-As pessoas são… - eu tentei encontrar a palavra - complicadas.

-Eu que o diga! Bom, vou indo nessa - ele disse dando uma batidinha de leve no ombro de Suzana.

-O Bob é legal - Suzana disse logo que ele desapareceu de vista, sorrindo. Era bom ver ela sorrindo e fazendo novos amigos.

-Eu vi o Daniel hoje, foi péssimo. Eu não devia ter vindo.

-Sabe o que a gente pode fazer agora? - ela disse, me ignorando - tomar um belo e gordo sorvete. Vamos.

-Mas a gente não vai pra aul… - mal tinha terminado de falar e estava sendo arrastada por Suzana pelos corredores, desviando dos professores e do inspetor. Eu sabia o que ela estava fazendo, ela estava tentando me distrair, o que não era inteiramente ruim. Assim que ela percebia que eu poderia desmoronar, ela me tirava daquele buraco inventando algum tipo de acontecimento imperdível. Mas e se eu quisesse cair no buraco? E se eu quisesse afundar tão profundamente que acabaria fazendo parte da escuridão e nunca mais pudesse voltar?

-Suzana, espera - eu disse tentando soltar meu braço de forma gentil - eu não acho que sorvete ajuda. Acho que nada pode me ajudar. Apenas... fique ao meu lado, e uma hora toda a dor irá embora. Ela tem que ir embora.

Ela não disse mais nada e eu apenas me desculpei por aquilo, afinal, ela tinha as melhores das intenções, e esta era apenas a minha forma de lidar com a dor. Eu precisava cair.
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