quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Side Story "Depois" parte 1

Atenção: Contém spoilers!!!

Tive algumas ideias para esta side-story que acontece logo depois de um acontecimento importante da história, no último capítulo. Digamos que escrevi o que acontece naquele meio tempo, mas que não apareceu no quadrinho. Se ficar muito confuso, me avisem. Espero que gostem.


Um dia depois

Acordei com uma ressaca daquelas. Minha cabeça doía tanto que suspeitei que era meu cérebro tentando escapar da minha caixa craniana, e não só isso como latejava em ondas constantes e cadenciadas, me dando apenas alguns segundos de alívio para depois voltar a martelar. Estava começando a ficar enjoada, então corri até o banheiro e vomitei. Já me sentia um pouco melhor, mas foi quando me deitei novamente na cama que lembrei…

E então meu estômago embrulhou de novo, mesmo não tendo mais nada alí. Segurei o vômito o máximo que pude porque dessa vez só sairia bile. Isto não seria nada legal. Fiquei me perguntando por quê? O porque de tudo aquilo, mas não tinha uma explicação. Por um momento senti raiva, mas não era raiva. Era só…

Sei lá.

Meu celular tocou, não lembro quem era ou o que disse, e só lembraria na manhã seguinte. Há  um tempo atrás todas essas coisas pareceriam uma bobagem sem tamanho, uma tolice. Eu não me imaginaria neste lugar. A “eu” de antigamente teria vergonha da “eu” atual, e eu nem sei dizer se isso é uma coisa boa ou ruim. Eu nunca quis um namorado. Bem, talvez quisesse sair com a pessoa pela qual era atraída, viver um romance proibido. Isso eu tinha feito, e quer saber, às vezes fazemos coisas só pra dizer que já fizemos, e mesmo que tenha sido legal na época, elas acabam perdendo o singificado. Foi assim com o Diego, mas era porque eu sabia mais dele do que qualquer um dos seus amigos, e todo o mistério acabou. Ele me entendia de jeitos que nem eu mesma entendia e isso me dava um pouco de medo. E também porque ele costumava dizer as coisas mais escrotas, nas horas mais inoportunas, mas que no fundo era as que eu precisava ouvir, mesmo que eu não quisesse admitir. Em suma, ele fora um péssimo namorado. Porque ele não me queria como namorada, porque ele não sabia lidar com esse conceito de ser namorado, nem com as responsabilidades que vem com ele.

O Daniel foi a única pessoa que me fez querer ser uma versão melhorada de mim mesma, que me fez olhar para dentro de mim e ver aquele monte de merda. E tinha muita merda. Eu precisava mesmo fazer um update do sistema operacional e seguir em frente, porque sabe, não dá pra viver pra sempre enxergando um inimigo em cada esquina, ir lá e enxer ele de porrada como se isso fosse resolver alguma coisa. Me deixava mais aliviada, é verdade, mas eu queria parar com essas coisas.

Talvez eu nunca fosse capaz de mudar realmente. As pessoas podem mudar completamente? Acho que não. Acho que tem sempre aquela coisa que fica, a essência. Essencialmente, sou uma pessoa física, mas eu poderia muito bem canalizar minhas energias em outras coisas, tipo transando. Transar é fácil quando se tem um namorado levemente sacana a sua disposição. Quer dizer, agora o tempo verbal não se aplica mais.

Tinha…

Quando eu tinha um namorado.

Nunca o mundo pareceu tão injusto, bem quando eu tinha decidido  me livrar de todos os preconceitos quanto a levar um namoro a sério; se comprometer, usar aliança, dizer “eu te amo” e todas as breguices implicadas. Tudo bem, sabe, porque ele estaria comigo. Era isso que importava. Não chegava nem a ser um sacrifício, eu apenas não me importava, até comecei a achar legal. Cara, eu até comecei a planejar uma vida a dois. É, eu sei, parece patético, mas acho que qualquer idiota apaixonado já imaginou isso algum dia, e agora também acho que estou achando coisas demais para alguém com uma ressaca do tamanho de Júpiter e de coração partido.Tomei algumas aspirinas e voltei a dormir um sono profundo e sem sonhos.

Acordei mais tarde no mesmo dia com o sol batendo no meu rosto. Com muito esforço, fechei a persiana e me afundei novamente no travesseiro. Vazio. Era isso o que eu sentia, porque não consegui distinguir muito além disso. Desci as escadas ainda de pijama e de pantufas, e só quando cheguei na cozinha percebi que eram as pantufas que Daniel me dera de presente - com patas de dinossauro - para combinar com as dele. Joguei-as longe. Ugh!

Vovó não estava em casa. De repente me vi completamente desconsolada. Preciso ligar para alguém. Preciso que alguém me distraia. Não conseguirei sobreviver a este dia sozinha. Preciso da Suzana.

Ela chegou lá pelas sete horas, exatamente três horas depois de eu ter ligado, três das quais eu passei olhando fixamente para tevê enquanto trocava de canal compulsivamente, a procura de “algo que prestasse”. Obviamente, eu estava procurando outra coisa. Um sentido pra vida, talvez.

-Eu não sabia que tipo de filme você estaria a fim de assistir agora, então trouxe um pouco de tudo… desde Hitchcock até Se beber, não case - ela disse com a voz serena.

-Suzaninha, acho que vamos de comédia light.

Ela colocou o filme no Playstation e eu já não conseguia definir as formas que passavam na minha frente, nem se deveria rir ou chorar. Decidi que Suzana seria meu ponto de referência então eu soltava uma risadinha idiota toda vez que ela ria, e assim tentei acompanhar.

-Foi divertido - ela disse assim que os créditos começaram a rolar.

-É… - o que eu disse mais parecia um grunhido, mas acho que ela entendeu - Tá ficando tarde... se quiser ir pra casa, tudo bem. Vai ficar tudo bem.

-Não - ela sorriu decididamente - não vou a lugar algum.

Eu não sabia se ela entendia, mas algo no olhar dela me dizia que havia empatia. Talvez ela quisesse me abraçar e não sabia como, ou se deveria. Talvez ela quisesse perguntar como eu estava me sentindo, ou como tudo tinha acontecido, ou talvez apenas quisesse dizer “estou aqui, caso queira conversar”, mas ela não disse nenhuma dessas coisas, apenas sorriu e foi fazer mais pipoca de microondas. Porque ela estava lá, eu me sentia mais confortável, era isso o que ela causava na gente, essa sensação de algo familiar, aconchegante, estável. Eu podia dizer com certeza que ela era o mais próximo de família que eu tinha naquele momento.

Estávamos deitadas lado a lado no colchão de ar improvisado na sala quando ela disse, finalmente:

-Quer saber, eu dedici não gostar mais do seu irmão.

Fiquei um tempo em silêncio, medindo as palavras sem entender.

-Como se deixa de gostar de alguém? - perguntei. Eu gostaria muito de saber a resposta.

-Não sei. Acho que você começa aniquilando a possibilidade de estar com aquela pessoa. Elimina completamente da sua cabeça. Se não pode ficar com ela, então qual a razão de gostar dela?

Eu ri.

-Parece muito simples… na teoria.

-Exatamente - ela concordou - mas eu nunca disse que seria fácil - então ela se virou para mim e deu um sorriso de escárnio.

-Deus, eu criei um monstro.

Tive a sensação de que Suzana evoluiu (exatamente como um Pokemon) e eu não estava lá para ver. Parece que perdi uma parte importante da sua vida em que finalmente encontrara a confiança para tomar decisões por si mesma. Mas o importante é que ela estava lá, tão segura de si  que me fazia sentir como uma garotinha indefesa.

-Ele me deu um belo pé na bunda - eu disse, finalmente. Falar aquelas palavras foi como dar um vômito certeiro na cara de alguém, mas continuei - eu sei que eu disse ontem que “a gente terminou” mas “a gente” não decidiu porra nenhuma, ele foi lá e me chutou como um balde velho.

-Ouch.

-E nem se deu o trabalho de dar uma explicação decente…

-Juno…

-...disse algo sobre “preciso me encontrar”...

-Juno.

-...”isto não é sobre você, é sobre mim”...

-JUNO.

-Oi - respondi, saindo dos meus devaneios. Suzana apoiou o rosto com as mãos, virando-se pra mim.

-Eu sei do que você precisa.

Já era quase madrugada e estávamos andando pelas ruas da cidade de moletom e chinelo. Paramos em cima de uma ponte e então ela apontou para a avenida abaixo de nós.

-Você acha que eu devo me matar? - Brinquei.

-Ah, por favor - ela disse em tom de reprovação - acho que devia fazer algo imprudente, como subir na grade e gritar alguma coisa pornográfica - então ela tirou um vidrinho da mochila - toma isso aqui, talvez te ajude.

Bebi e descobri que era cachaça quando o líquido desceu ardendo pela minha garganta. Ela também tomou um gole, subiu na grade e gritou algo tão sacana que eu nem sabia que sequer existia. Ela desceu toda feliz e sorriu de forma desafiadora.

-Eu não sei, não consigo pensar em nada… - eu disse.

-Fala qualquer coisa que vier a mente.

-Bem… - eu comecei, a voz trêmula, mas não tão trêmula quanto minhas pernas ao subir o primeiro degrau da grade. Os carros lá embaixo eram apenas flashes brilhantes que passavam rápido demais para serem identificados. E de repente senti como se tudo tivesse acontecido rápido demais e eu não tivesse tido a chance de dizer tudo o que queria ter dito, e me senti estúpida por isso - Suzana, eu acho que não posso fazer isso.

-Tudo bem - ela disse afagando minhas costas e me pegando pelas mãos. Acho que a essa altura eu já estava chorando pateticamente - Vamos voltar pra casa.

Voltamos todo o caminho em silêncio. A tira do chinelo já estava machucando meus pés, o que era bom, porque a dor física fazia eu me esquecer da dor interna que esmagava meu peito. Bebi o resto da garrafinha da cachaça pensando comigo mesma que Suzana tinha mudado tanto a ponto de carregar bebida alcoolica na mochila mesmo que fosse apenas pra consolar uma amiga que havia acabado de ser enxotada.


Continua.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Nossa, quero continuação. º--º
    Quem diria que a Suzana guardaria uma garrafa de cachaça?! Ela cresceu mesmo.

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    Respostas
    1. Haha queria fazer algo diferente mesmo, pra mostrar essa mudança!

      Irei postar a continuação em breve ;)

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