quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Uma side-story da Amanda II

Senti uma vontade de escrever e aproveitei pra escrever mais uma side-story baseada no universo do Vidas. Como sei que um pessoal curtiu muito a personagem Amanda, que é irmã do Daniel, decidi escrever mais sobre ela, sobre um outro lado dela. Espero que gostem!! Mesmo quem não leu toda a história pode entender esse trechinho =)



              Uma side-story da Amanda II


          -Não entendo porque você começa a comer pela sobremesa - começou o garoto, a estranhando.
          -Qual o problema? - ela pergunta, fitando-o impassível.
          -Nenhum problema, só acho estranho - ele volta a remexer na própria comida, um pouco desinteressado.
          A garota larga os talheres ao lado do prato, pronta para confrontá-lo.
          -Sabe, quem é que inventou que preciso comer a comida e só depois a sobremesa? Por que não posso comer a sobremesa antes?
          -Não sei, mas não é o que faz sentido? Você come o salgado, aí então sente vontade de comer algo doce. Não acho que esse padrão seja aleatório, as pessoas fazem isso porque, sei lá, alguém notou que nosso corpo funciona dessa forma. Além disso - ele começou a se cansar - eu já vi isso em algum filme, não é nada original.
          Amanda voltou a comer sua sobremesa, como se nada tivesse acontecido.
          -Você ficou brava? - Pela primeira vez, o garoto se deu conta que talvez a tivesse chateado, e que não era isso o que ele queria. Ele gostava dela, e por isso a havia convidado para sair.
          Ela fez que não com a cabeça, com uma expressão que dizia "claro que não, olha pra minha cara de que se importa com o que você acha". Ele não sabia que uma expressão podia dizer tantas coisas ao mesmo tempo, mas essa era Amanda.
          -Eu gostei do que você fez com o cabelo, quer dizer eu gosto de você loira, mas preto ficou legal, te deixou com uma cara mais... dark... ah, você sabe.
          Amanda o olhou de canto de olho, o que o fez se sentir muito idiota.
          -Então, você acha que eu sou uma criatura estranha e por isso me chamou para sair, ou o que?
          -Não! Não tem nada a ver...
          -Você achou que seria legal sair com uma garota estranha? Tipo, uma história pra contar pros seus filhos depois? Uma vantagem para você em relação aos seus amigos?
          -Jesus, Amanda! Não, não é nada disso - ele disse, sem fôlego - você é realmente agressiva, não precisava de tudo isso.
          -Eu conheço muito bem caras como você.
          Então, ele começou a entender.
          -Você saiu com muitos caras que só queriam te usar?
         Ela não respondeu, ficou em silêncio arrastando os restos de sobremesa de um lado a outro do prato.
         -Olha - ele começou, confiante - pra sua informação eu nem ao menos sou popular, não tenho porque ficar contando vantagem pros meus amigos e outra, eu achei que você era interessante. Só isso. Eu preciso de outra razão pra chamar uma garota pra sair?
         Ela levantou os ombros, como se dissesse que tanto faz.
         -Esse seu lado passivo-agressivo até que é uma graça... - ele sussurrou, quase como para si mesmo - Então, por que você decidiu sair comigo?
         Amanda respirou fundo e fitou a rua através da janela ao seu lado.
         -Não sei, eu queria provar alguma coisa pra mim mesma.
         -Provar? - ele perguntou confuso - Provar o que exatamente?
         Ela virou-se para ele, finalmente, fitando-o nos olhos, e então sorriu.
         -Deixa pra lá, é besteira minha.
         Pela primeira vez, ele ficou realmente preocupado com ela. Amanda era o tipo de garota que gostava de ficar sozinha, muitas vezes a encontrava escrevendo sentada nas escadas da escola. Depois de um tempo, ela começou a andar com uma turma de góticos, desses que iam para o cemitério a noite, se vestiam de preto e usavam meias nos braços. Eles eram pessoas curiosas, mas ele não se interessava particularmente por eles. Ele achava que Amanda era estilosa de um jeito totalmente único e inspirador. Até mesmo esse jeito irreverente de quem acha que sabe tudo era um pouco encantador. Um pouco.
         Depois de um tempo, chegou a panqueca que ela havia pedido no lugar do que seria a sua sobremesa, e ele recebeu um pratinho com cheesecake.
         -E agora, quer fazer o que? - Ele perguntou, quando percebeu que ela já tinha acabado de comer.
         -Sei lá, tanto faz.
         -Pra alguém que sabe exatamente o que quer, você não sabe de nada.
         Ela riu.
         -Cinema então - ela sugeriu.
         -Conheço um lugar mais interessante, acho que você vai gostar.
         Amanda lançou-lhe um olhar de suspeita, mas acabou seguindo-o. Ele parou diante de uma moto e colocou um capacete nos braços dela, era rosa e tinha alguns adesivos grudados.
         -Peraí, você tem uma moto? Você dirige uma moto? Você tem uma habilitacão pra andar nisso aí, peraí, quantos anos você tem?
         Eram tantas perguntas que ele riu.
         -Calma, eu já tenho dezoito, é que eu repeti um ano no colégio.
         -Ah... - ela respondeu, colocando o capacete e pensando numa maneira de se apoiar na moto, mas não teve jeito, ela teve que se agarrar ao corpo dele e se segurar em sua cintura.
         -Esse lugar.. é muito longe?
         -Não muito - ele respondeu, dando a partida.
         Amanda não queria admitir mas a proximidade a incomodava. Ela era do tipo de pessoa que não costumava ser tocada, e nem tocava outras pessoas, então qualquer tipo de contato a deixava nervosa, como se fosse algo megaimportante, mesmo não sendo, em praticamente noventa por cento dos casos. Mas ela não sabia em qual porcentagem aquela proximidade estava inserida. Ela ficou com os braços rigidos em volta do corpo dele, e podia sentir o cheiro de shampoo do cabelo dele, que ficava batendo em seu rosto com o vento - era um cheiro neutro, levemente cítrico. Ele parecia não usar perfume, ou talvez fosse uma colônia bem leve, ou só desodorante, mas a pele do pescoço dele tinha aquele cheiro de pele, um cheiro de ser humano bastante atrativo...
         -Feche os olhos. - ele disse, tirando-a do transe.
         -O que?
         -Quero fazer surpresa. Se você souber para onde estamos indo, vai perder toda a graça.
         -Hey, você é tipo um assassino em série ou algo assim?
         -Se eu fosse, eu não lhe diria, é claro.
         -Posso dizer minhas últimas palavras?
         -Cala a boca e feche os olhos - ele mandou, e aquelas palavras a fizeram obedece-lo imediatamente. Ela sentiu uma ansiosidade, uma coisa que vinha do seu âmago, que revirou seu estômago, mas não sabia dizer o que era... talvez fosse a adrenalina de andar a oitenta por hora na rodovia, de olhos fechados, na garupa da moto de um cara que nem ao menos conhecia direito, completamente vulnerável, sem saber para onde estava sendo levada. E o pior de tudo, ela começou a gostar dessa sensação.
         Depois de aproximadamente sete minutos (ou quem sabe uma eternidade, amanda não sabia dizer) ele parou a moto e desceu, falando:
         -Não abra os olhos até eu dizer que pode, ok?
         -Ok... - a voz dela saiu trêmula.
         Ele a guiu pelas mãos por um terreno acidentado, parecido com pedregulhos. Talvez fosse o estacionamento de algum lugar.
         -É sério, essa brincadeira está perdendo a graça...
         -Aguenta mais um pouco, vai... acho que você vai gostar da surpresa.
         Andaram cerca de cem metros até que ele parou. Amanda ouvia barulho de engrenagens e pessoas gritando.
         -Tá certo, pode abrir agora.
         Ela abriu os olhos devagar, tentando se acostumar com os brilhos de alguma luz muito forte. Quando finalmente se deu conta da onde estava, não sabia direito o que sentir.
         -Magic City... - ela sussurrou - como você sabia...
         -Eu descobri com meus talentos de stalker, claro - ele respondeu, muito orgulhoso de si mesmo.
         -Como você possivelmente sabia sobre esse parque? Pouca gente sabe sobre ele... é só um parque de diversões fuleiro...
         -... que seu pai costumava te levar quando era criança? - ele completou - Eu leio seu blog.
         -Ai, sério, não acredito que você lê aquela porcaria - ela disse meio emocionada, meio surpresa, meio indignada, tudo ao mesmo tempo.
         -Bom, acho que a gente deveria ir ao menos no barco Viking, já que estamos aqui.
         -Ah, por favor - ela começou, como se estivesse muito velha para ir nos brinquedos - No barco Viking não - ela completou, com um certo terror na voz.
         -Peraí, você está com medinho?
         -Eu só não gosto desse brinquedo.
         -Ah, agora é que nós vamos! - ele a agarrou pela mão e a arrastou até a fila, que estava bem pequena. Pensando bem, aquele parque era bem vagabundo.
         Quando estavam devidamente sentados no barco Viking, Amanda começando a ficar branca, agarrando as barras de segurança como se fizesse parte do barco, disse:
         -Se eu vomitar em cima de você, não diga que não avisei.
         O barco começou a balançar, e ela gritava "ai não ai não não por favor não ai deus" e ela estava tão engraçada que ele se divertiu mais com sua reacão do que com o barco.
         Depois de um tempo, Amanda sentiu os braços começarem a formigar, e já não sentia mais medo, com seu corpo todo dormente, e aquele garoto ao seu lado ria tão descontroladamente, que ela quis rir também, e pela primeira vez sentiu que ele se importava com ela, nem que fosse só um pouquinho, e que talvez aquela tivesse sido a coisa mais adoravelmente romântica e sem noção (e brega) que alguém já havia feito por ela.
         E então ela riu também e colocou os braços pro alto, assim como ele, e aproveitou o resto da brincadeira como se mais nada existisse a não ser aquele momento.
         Até o final da noite, já tinham ido em todos os brinquedos pelo menos três vezes, até que estavam começando a ficar cansados e com a leve snesação de terem deslocado algum órgão interno. Enquanto caminhavam por um corredor de barracas de comida, ele pegou a mão dela, subidamente.
         -Cara... - ela disse meio atordoada - por que está fazendo isso?
         -Segurando sua mão? - Ele perguntou, confuso.
         -Não, tudo isso. O jantar, o parque... por que ir tão longe quanto ler meu blog?
         -Porque eu ligo?! Faço isso porque eu me importo com você, as pessoas se importam às vezes, sabe, Amanda.
         -Quer dizer... não tem nada de interessante sobre mim...
         -Ai, por favor, chega disso. Eu decidi fazer algo legal por você, será que dá pra aceitar sem ficar buscando por razões?
         -Quer dizer - ela continuou seu monólogo, como se ele não tivesse dito nada - eu sou a garota que come a sobremesa primeiro, e você é o cara que segue o padrão porque o padrão é bom pra você.
         -E daí? - ele estava se cansando.
         -Sei lá, você não acha que a gente não tem nada a ver?
         -Eu acho que você não sabe muito sobre mim.
         E bem, Amanda sabia que era verdade, afinal, o que ela sabia sobre ele...? Só que ele tinha repetido uma série da escola, mesmo parecendo ser um cara super centrado e sério. Talvez ele tivesse ficado doente e não conseguira recuperar o ano...
         -Felipe, desculpa, eu tenho me comportado como uma vadia essa noite.
         Ele riu.
         -Não, não... não como uma vadia. Como uma filha da mãe ingrata e sem coração, talvez. Mas agora vejo que minha condição passou de "criatura desprezível que só quer me usar" para "ser humano", já que você me chamou pelo nome, então me sinto mais reconfortado.
         -E se eu fizer algo por você? Para me desculpar por ser uma filha da mãe ingrata e sem coração?
         -Hum, feito - ele concordou - mas fazer tipo o que?
         Amanda rondou o parque com os olhos e teve uma ideia. Apontou para a máquina de fotos instantâneas.
         -Já sei, vou ali naquela máquina e tiro umas fotos com a camiseta levantada, e você pode ficar com elas.
         -Você tá falando sério?
         -Ué, tô.
         Então ela caminhou até a máquina e saiu alguns minutos depois, foi até Felipe e colocou as fotos no bolso da sua jaqueta.
         -Sério, se você me enganou, e eu chegar em casa, e não forem fotos sua seminua... - ele falou, meio brincando, meio sério.
         -Olha, Felipe, eu posso até ser uma filha da mãe, mas eu cumpro minhas promessas.
         -Cara... eu acho que tipo, você acabou de subir no meu conceito.
         -Só porque as garotas simplesmente não saem mostrando seus peitos por aí?
         Felipe virou-se e ficou fitando-a tentando encontrar alguma coisa que a explicasse, que explicasse seu comportamento mais cedo, tão fechado, como se existisse um muro entre eles, e então, de repente, lá estava lela, sendo incrível e tudo mais.
         -É, você tipo, deve ter virado minha heroína, ou algo assim.
         -Quando começo a ser eu mesma que começo a me arrepender - ela disse baixinho, como para lembrar a si mesma de algo importante.
         -Hey, o que foi isso? - ele parou e a virou, segurando-a pelo braço.
         -É só que... quando decidi sair com você, eu queria provar pra mim mesma que podia fazer isso sem me arrepender profundamente depois... quem sabe se eu fosse, sei lá, forte o suficiente. Mas você foi legal comigo, é verdade, mais legal do que qualquer outro cara, e você é pelo menos decente... - e aquela ultima palavras fez Felipe se sentir mais que um mero ser humano na escala Amanda, e talvez ela tivesse saído com mais caras idiotas do que ele imaginara.
         Eles ficaram em silêncio, contemplando o parque que agora estava ficando vazio e começando a mostrar seu lado, digamos, deprimente. O barco Viking foi o primeiro a ter suas luzes desligadas e assim que o chapéu mexicano desligou, Felipe falou de súbito:
         -Quer saber, acho que a gente devia tentar dar uma última volta na Roda Gigante.
Antes que Amanda pudesse responder, estava sendo arrastada pelo parque, comprando as ultimas entradas pra roda gigante (contra todos os avisos do funcionário que dizia que estavam fechando), passando pela catraca, e enfim, sentando naquele banco azul desgastado.
         -Então você é esse tipo de cara... - ela disse baixinho.
         -Primeiro, eu não sou tipo de cara nenhum, segundo, de que tipo você está falando?
         -Que faz coisas incrivelmente perfeitas, no momento perfeito, e que acaba um encontro com uma última volta na Roda-Gogante... Quer dizer, o que pode ser mais romântico que isso?
         Felipe ficou fitando a paisagem através da janelinha, observou enquanto se afastavam do chão e então voltavam novamente, dando uma volta perfeita no universo, ou apenas no universo reduzido que existia entre eles.
         -Ou a gente pode parar de pensar sobre a perfeição ou não perfeição desse momento e apenas... aproveitá-lo.
         Felipe sabia que não havia nada de perfeito no que havia feito, havia talvez um pouco de planejamento, afinal, ele havia pesquisado coisas sobre elas a fim de surpreendê-la, mas ele fez isso pelo simples motivo de querer fazer algo legal. Todo o resto era mera improvisação. Ela poderia ter odiado, mas talvez houvesse gostado.
         Amanda decidiu acompanhá-lo na sua observação do universo. lembrou-se da mesma cena, na sua infância, em que costumava andar de roda gigante com seu pai, mas ao contrário de Felipe, ele parecia estar lá sempre por obrigação, como uma forma de se sentir menos culpado por nunca ter tempo para ela, e estar sempre fora, viajando a trabalho. Estar com Felipe alí, naquele momento, pareceu estranhamente confortável.
         -Felipe, será que a gente pode sair de novo qualquer dia desses?
         Ele sorriu o sorriso mais adorável do universo (do universo deles).
         -Só se eu puder comer a sobremesa primeiro.

Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Nossa, gostei muito! 'o'
    Bastante profundo e bonito. Ainda não li a primeira SS sobre ela, mas vou correndo fazer isso. hehehe

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