terça-feira, 15 de outubro de 2013

Side-story da Suzana - parte 2

E aqui vai a segunda e última parte da side-story da Suzana ;)

Leia a primeira parte aqui.


Side-story da Suzana - parte 2


                  -Onde será que os meninos se meteram - ela balbuciou.
                  -O que eu não daria para estar em casa agora, seco.
                  Suzana se sentiu incomodada pela primeira vez por causa das calças molhadas, mas pelo menos estavam molhadas apenas no comprimento e não na bunda. Ela se encolheu e abraçou os joelhos.
                  -Aquilo foi incrível, sabe - Pedro começou - aquilo que você fez no riacho, e depois com o morcego, eu nunca teria tido a coragem...
                  -Acho que foi impulso, nem pensei...
                  -Tu tem um belo instinto de sobrevivência.
                  Suzana deu de ombros, sem se importar muito com seu suposto heroísmo. Pedro se esgueirou no banco e fuçou no porta-malas, voltando com algumas barrinhas de cereal.
                  -Obrigada - agradeceu Suzana.
                  Pedro sorriu, pensando consigo mesmo que nunca seria capaz de se perdoar pelo que fez aquela garota passar. Ela devia odiá-lo até o último fio de cabelo, até o fim do universo e além.
                  -Se eu contasse pra Juno tudo o que aconteceu hoje, ela nunca acreditaria - Suzana começou a falar porque notou que os barulhos vindo de fora eram muito assustadores para se ficar em silêncio.
                  -Ah, nem o Jay - Pedro respirou fundo - Deve ter alguma coisa nesses genes, sei lá, por que eles tem que ser tão... irritantemente populares?
                  -Eles são mesmo bem populares - Ela concordou.
                  Pedro pensou que ele e Suzana eram muito parecidos: ambos eram meio tímidos, meio estranhos, meio anti-sociais, meio melhores amigos das pessoas mais populares do colégio (ou pelo menos o Jay costumava ser, na época deles)
                  -Mas no fundo, são boas pessoas, só meio distraídos.
                  -É! Completamente distraídos. - Suzana concordou, e Pedro percebeu que havia uma mensagem escondida naquela afirmação.
                  -Então... você... já ficou com o Jay? - As palavras saíram falhadas. Ele se lembrava vagamente das conversas de Juno, de ter ouvido alguma vez que Suzana gostava do Jay, ou algo assim, mas ele nunca soube de nada além disso.
                  -Ahm? O que? Não! Claro que não... - ela respondeu, meio confusa, meio envergonhada.
                  -Ah, foi mal... - ele respondeu, se virando pra janela. Não devia ter feito uma pergunta tão pessoal.
                  Mas a verdade era que o silêncio estava os incomodando muito. Eles podiam ouvir animais grunhindo, o vento soprando fazia um barulho assustador, e as árvores envelhecidas rangiam.
                  -É, então, você namora? - Suzana arriscou.
                  -Nem. E você?
                  -Nope.
                  -Eu curto muito o L - Pedro mudou de assunto subitamente, e Suzana levou alguns segundos para entender que ele estava falando do mangá "Death Note".
                  -Ah, sim, ele é um personagem bem maneiro.
                  De repente, Suzana se lembrou que sua bolsa deveria estar em algum lugar jogada no carro, achou-a debaixo do banco da frente, pegou seu celular, que estava sem bateria, afinal.
                  -Droga! - exclamou - Sabe nas histórias de terror, quando as pessoas parecem nunca andar de celular? Agora não me parece tão estúpido...
                  Pedro começou a tamborilar os dedos de nervoso, ou era de fome, então abriu uma latinha de coca-cola que venderia na pedalada, depois oferecendo-a a Suzana.
                  -Sabe o que é mais engraçado? - Ele começou, visivelmente inquieto - Eu sempre te achei gatinha e tudo mais.
                  Suzana ficou fitando-o, sem saber o que dizer.
                  -Quer dizer - ele começou a balançar a perna freneticamente - mas você era a melhor amiga da irmã dele, e você sabe como o Jay era... e ele dizia pro Diego "cara se você encostar na minha irmã eu te mato" e depois completava "e na amiga dela também". E o Jay pode ser muito convincente.
                  Suzana percebeu que os avisos do Jay não tinham nenhum efeito sobre o Diego, no final.
                  -Você é um bom amigo - ela disse, sorrindo.
                  -Ah, por favor - ele se encolheu no canto do carro, deprimido e nervoso.
                  Mas ela continuava sorrindo, o que de certa forma o aliviava. O "eu" de Suzana que Pedro havia conhecido aquela noite era muito diferente do que ele imaginava, mas ele entendia muito bem a situação: as pessoas dificilmente chegavam a conhecer os outros lados que iam além do seu "lado tímido", por isso, às vezes, elas acabavam se surpreendendo, assim como ele havia se surpreendido. Por um momento, ela não era mais a "amiga da Juno", ela era apenas Suzana.
                  Agora qual devia ser a impressão que ela tinha dele? No mínimo que era um covarde, que gritara como uma mocinha enquanto corriam pelo mato, e também que precisou de ajuda para atravessar um riacho inofensivo.
                  -A Juno sempre me zoou por gostar do irmão dela... acho que ela nunca acreditou em mim de verdade.
                  Então era verdade que ela gostava dele.
                  -Então por que, hum... você nunca tentou nada? - Ele perguntou.
                  Ela virou-se para encará-lo, e ele teve sua resposta. Ele sabia qual era razão dela nunca ter falado nada, poque era a mesma razão que também o impedia de tomar alguma iniciativa. Talvez Suzana estivesse tendo aquela mesma leve sensação de como eles eram patéticos em relação aos seus melhores amigos, que pareciam sempre tão brilhantes e decididos.
                  -Quer saber? Eu acho que a gente chutou bundas hoje! - Ele falou, começando a se animar de verdade. Ele se recusava a se sentir deprimido por causa de coisas tão estúpidas - Ou melhor, pelo menos você chutou bundas hoje... - Ele corou.
                  -A gente chutou bundas! - Ela gritou, levantando o braço, como se fosse algum tipo de coro musical.
                  Pedro levantou o braço também, assentindo. Se olharam por um tempo infinito, sorrindo bobamente, como duas crianças que acabaram de ganhar algum campeonato na escola.
                  -Meu, vamos dar o fora daqui - Pedro disse enquanto passava para o banco da frente. Suzana o seguiu e sentou-se no carona.
                  -Como a gente vai ligar o carro? - ela perguntou, finalmente se dando conta de que a situação era crítica de verdade, sozinhos, e perdidos no meio do mato.
                  Pedro bateu as mãos no volante com força, não estavam com as chaves, tinha se esquecido desse detalhe.
                  -Tá, então a gente fica aqui esperando eles voltarem, mas tudo bem, porque estamos seguros dentro do carro - Suzana disse mais como um lembrete para si mesma.
                  -Ai, meu... esse deve ser tipo o rolê mais mancada do universo!
                  -Tudo bem.
                  -Ai, sério, não posso acreditar nissoooo - Pedro disse, quase arrancando os próprios cabelos.
                  -Calma, vai ficar tudo bem.
                  -Meu, o Will me paga, sério. Ele vai me dever favores nessa vida e na próxima, ou simplesmente até o final dos tempos.
                  -Pelo menos, a gente chutou bundas...
                  Nesse momento, alguma coisa bateu na janela de Suzana com força, grunhindo muito alto: GRAAWWWW. Suzana gritou, então pedro gritou, e gritaram por pelo menos um minuto, Suzana cobrindo o rosto com as mãos, desesperada, e então perceberam que era apenas a cara de Bob apoiada no vidro, e agora ele estava rindo.
                  -SEU FILHO DA PUTA! - ela gritou, empurrando a porta para fora com as pernas com toda sua força. Bob caiu no chão, rolando de tanto rir.
                  -Puta merda... vocês deviam ter visto a cara de vocês! - ele disse, dando a volta no carro e abrindo a porta do motorista. Pedro ficou olhando para a cara dele, sem entender, então Bob continuou - Sai fora.
                  Pedro pulou para o banco de trás, dizendo:
                  -Mas a gente não tem a chave...
                  Então Bob balançou a chave na frente deles e colocou na ignição, dando a partida.
                  -Encontrei com Will no meio do caminho, ele disse que tinha encontrado um lugar com sinal bom pro celular, e acho que estava discutindo com os caras da pedalada. Estamos atrasados.
                  Ele deu a ré com tudo, empurrando-os contra o vidro do carro, e então deu meia volta, e seguiu pelo mesmo caminho que vieram a toda velocidade.
                  -Espera aí, e quanto aos outros? - Suzana quis saber dos outros dois dos quais não se lembrava o nome.
                  -Sei lá - Bob respondeu, como se não fosse nada - acho que os vi enterrando o cachorro numa vala bem funda, depois vim direto para o carro.
                  Pedro e Suzana se entreolharam: estavam enterrando o cachorro que estava latindo há apenas alguns instantes atrás? Não sabiam se contavam para Bob que ele estava vivo, porque provavelmente estaria muito ferido e, talvez, prestes a morrer, e isso poderia deixá-lo ainda mais chateado. Decidiram telepaticamente que nunca mais falariam sobre o que havia acontecido com o cachorro ou com o morcego naquele dia.
                  Quando alcançaram a estrada pavimentada novamente, Suzana teve a sensação de que talvez tudo o que havia acontecido fosse apenas um sonho maluco, e que tudo o que tinha pra dar errado, deu, no meio do caminho, mas que tudo bem, porque afinal era só um sonho. Então virou-se para o banco de trás e viu Pedro observando nervosamente o caminho pela janela do carro. Ela não conhecia aquele garoto tão bem, mas sentia que havia um entendimento mútuo e secreto entre eles, algo que não poderia explicar em palavras. Sentiu-se confortada depois de muito tempo, porque mesmo que estivesse sozinha, ela saberia que existia mais alguém nesse mundo que seria minimamente capaz de entende-la.
                  Ouviram uma buzina vinda do carro de trás, que logo estava emparelhado com o carro deles. Eles podiam ver Jay, que estava dirigindo, Will que estava no carona, e os outros dois anônimos que acenavam para eles.
                  Pedro e Suzana se entreolharam, de olhos arregalados, sem conseguir entender direito a sequencia de fatos que levaram a aquele momento. Apenas começaram a rir e não conseguiram parar até chegarem na tal pedalada.
                  O gramado do velho centro de convenções estava abarrotado de gente vestindo roupas colantes e bicicletas de todos os tipos, cores e tamanhos. Pedro carregava algumas caixas até a tenda de bebidas, Jay apenas ria, tomando uma coca-cola, conversando com vários amigos que, segundo ele, havia encontrado na beira da pista pedindo por uma carona, Will, Bob e os dois anônimos, que por sua vez, contaram como encontraram o tal cemitério de animais e que decidiram enterrar o cachorro ali. Talvez houvessem detalhes faltando naquela história, mas isso já não importava. Quando virou para o lado, se surpreendeu em quem encontrou por lá.
                  -Juno?
                  -Suzana! cara, você tá atrasada - Ela parecia alegre demais, talvez bêbada.
                  -Como assim, atrasada? Eu tava te esperando na porta da sua casa, pra gente jogar, lembra?
                  -Mas eu te mandei uma mensagem dizendo que estaria aqui...
                  Juno ficou pensativa por um tempo (longo demais para alguém sóbrio) então tirou o celular do bolso, sacudiu-o um pouco e então disse:
                  - Droga, acho que pifou. Esquece, parece que vai rolar uma festa. Cara, você não acredita em quem encontrei aqui... sério... aconteceu tanta coisa que nem sei por onde começar a contar - então ela parou e se virou para Suzana - Mas cara, o que aconteceu com a sua calça?
                  Suzana riu pensando consigo mesma que sua amiga não tinha jeito mesmo.
                  -Me conta o que aconteceu vai, Juno... nos mínimos detalhes, por favor.


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