segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Side-story da Suzana - parte 1

Bom, eu decidi fazer algo diferente nesta side-story que foi tipo escrever uma mini aventura. Eu sei que não costumo escrever aventuras, mistério e tal, mas eu gostei porque a Suzana foi uma personagem com muito potencial e pouco explorada da trama principal do Vidas. Então essa é para os fãs de Suzana e Pedro! ;D

Ah, eu vou dividir em 2 partes porque ficou realmente longo xD




Side-story da Suzana - Parte 1

          Suzana estava sentada nos degraus na frente da casa de sua melhor amiga, lendo um mangá que sempre carregava na bolsa, quando sentiu uma sombra se aproximando dela. A sombra disse “hey” antes mesmo que ela levantasse a cabeça para ver quem era.
          -Ah, oi Pedro.
          -E aí, tudo certo? O que você tá lendo aí?
          -É um mangá – ela levantou o exemplar pra que ele visse a capa, onde estava escrito “death note” – é tipo um desenho japonês – ela disse, para se certificar de que ele entenderia.
          -Tô ligado, em que parte você está? – ele perguntou, o que a surpreendeu, porque nunca achava que as pessoas gostassem de ler mangá.
          -Hum, ninguém descobriu ainda quem ele é.
          -Cara, a história fica muito boa, até ficar muito chata e enrolada, mas é um mangá muito bacana, você vai gostar. Hey, você sabe se o Jay tá aí?
          -Não sei, a Juno falou pra eu encontrar com ela pra gente jogar um pouquinho, mas ela não tava em casa. Ela não tava em casa, e me chama pra jogar na casa dela, sério. Então eu tô aqui esperando ela chegar – Suzana sempre se surpreendia em quanta coisa inútil ela podia dizer quando estava meio nervosa.
          -Pode crer – ele respondeu – e se eu tivesse um Death Note agora, escreveria o nome do Jay. A gente combinou de ensaiar hoje cedo, mas ele nunca apareceu. Eu não sei o que acontece com essa família.
          Suzana observou enquanto Pedro pegava o celular, discava um número e colocava o celular perto do rosto, e alguns minutos depois, desligando-o e o colocando no bolso de novo.
          -Ele não responde, caramba. Que horas será que ele voltou da festa ontem?
          -As vezes, ele nem voltou da festa – Suzana sugeriu.
          Pedro a olhou como se fosse a garota mais inteligente do planeta.
          -Mas é claro, vou tentar ligar para algumas amigas dele!
          Suzana voltou a sua leitura, mas alguns segundos depois, Pedro sentou-se ao seu lado.
          -Ai, desisto. Tá bom, não era pra gente ensaiar hoje.
          -E o Diego?
          -Ele apareceu lá, mas depois disse que tinha alguma coisa mais importante pra fazer, vai ver ele tinha hora marcada no salão para fazer as unhas.
          Suzana riu, mas na verdade Pedro estava um pouco desconsolado.
          -É que cara, você está no último ano, está sussa... imagine se formar e não ter ideia do que fazer, poxa, hoje eu só queria ensaiar e fingir que tava tudo de boa.
          -O Jay tá indo pra faculdade, né... e a Juno também, no ano que vem.
          -Putz, e ela terminou mesmo com aquele carinha?
          -É, terminou, e mudou de escola.
          De repente, ouviram uma buzina, e perceberam que havia um carro estacionado alí na frente. O carona abaixou o vidro do carro, e Suzana só conseguiu ver um cara encapuzado e com cara de mal encarado:
          -Chega aí, cara.
          -E aí!
          E então, Pedro levantou e foi até ele. Ele parecia conhecer os caras. Ela não conseguiu ouvir o que eles estavam falando, só reconheceu algumas palavras mas nada que fizesse muito sentido. Começou a se aborrecer por Juno ser tão relapsa com ela às vezes, como fazê-la ficar esperando por ela na porta de sua casa.
Então Pedro virou-se pra ela:
          -Su, eu acho que descobri onde está o Jay, quer dizer, é muito provável que ele esteja lá, mas de qualquer forma, estou devendo um favor pro pessoal, então vou indo nessa. Você vai ficar por aí mesmo?
          -Eu acho que sim, quer dizer, não sei quando a Juno vai chegar...
          -Juno? – falou um dos caras de dentro do carro – ela tá lá também, vem com a gente.
          O radar Suzana para rolês muito errados começou a apitar, mas ela ignorou, quer dizer, qualquer coisa deveria ser melhor do que ficar esperando plantada ali naquela escadinha, não é? No fundo, estava chateada. Juno havia mudado de escola sem piedade, como se fosse a coisa mais simples do universo deixar seus amigos para trás. Ela poderia ter ficado lá mais um ano, até se formar, mas não... Agora se viam muito raramente, e quando se viam, era assim, meio que na sorte. Suzana correu até o carro, já guardando o mangá na bolsa.
          -Vocês tem certeza de que era ela? Uma garota bem alta, cabelo castanho, que dá um pouco de medo de olhar diretamente nos olhos?
          -Sim, claro! É ela mesmo – eles responderam, meio rindo, meio sérios.
          Suzana e Pedro se entreolharam e balançaram os ombros, afinal, o que poderia dar errado? Os dois se espremeram no banco de trás, que diviram com mais dois caras estranhos. Tinha um de boné, o Bob, que Suzana reconheceu de algum lugar, e o motorista que usava rastafari e falava um pouco devagar demais, meio hippie, sei lá. Não conseguiu gravar nem o nome nem a fisionomia dos outros dois, mas julgou que não seria assim tão importante.
          -Pois é cara, maior loucura ontem, foi uma festa das boas, saca. Falei com o Jay e tal, mas o cara sumiu – era o motorista falando – e acho que ele levou meus beck, porque nunca mais encontrei – então ele riu, como se tudo aquilo fosse muito normal.
          Suzana estava um pouco apreensiva, pra não dizer que estava muito assustada. Aqueles caras não pareciam ser perigosos nem nada, mas o motorista usava drogas, então como podia confiar que sairia viva até o final daquela carona?
          -Gente, para onde estamos indo mesmo? – Ela perguntou, sem reconhecer o bairro a sua volta.
          -Relaxa, a gente tá indo pro antigo centro de convenções.
          Ela pensou um pouco.
          -O antigo centro de convenções... que fica na divisa da cidade e que foi desabilitado por ser contruído numa área pantanosa?
          -Putz, esse mesmo, mas não sabia que era uma área pantanosa, que louco!
          Suzana quis abrir a porta do carro e sair rolando pela pista, como se faz nos filmes de ação, mas concluiu que não seria nada sensato.
          -E por que a gente tá indo pra lá mesmo?
          -Olha, parece que tá rolando uma coisa, um evento, sei lá, e o Will pediu pra eu ajudar a carregar umas caixas e a vender as bebidas, algo assim – disse Pedro.
          -Ah... – ela respondeu, checando seu celular, e rezando para a bateria durar por tempo suficiente – então vocês tipo, organizam eventos?
          -Tipo isso, cara. Hoje vai rolar uma mega pedalada. Cicloativistas, manja?
          Suzana estava começando a se irritar com o jeito que esse tal de Will falava, ou apenas estivesse ficando nervosa, se perguntando porque teria entrado no carro de um desconhecido, por que diabos faria isso, por que?
          -Calma, Su... a gente te leva pra casa mais tarde, ok? – Pedro tentou confortá-la.
          “Ai meu Deus onde estão me levando hoje que eu morro que que eu fiz pra merecer isso calma suzana vai ficar tudo bem é só uma pedalada um bando de pessoas que gostam de andar de bicicleta e quando se der conta vai estar na sua casa sã e salva MEU DEUS CUIDADO COM O CACHORRO”
          Quando se deu conta, havia gritado a ultima frase ao mesmo tempo em que o Will atropelava o que parecia ser um cachorro, que agora estava estatelado no meio da pista.
          -Cara, eu não acredito que a gente atropelou um cachorro, Will eu vou te matar – este era o Bob, que saiu do carro e caminhou até o animal – Puta que pariu, Will, você atropelou E matou um cachorro.
          -Fica aqui, tá bom – Pedrou falou pra Suzana – não fica olhando, eu vou lá ver qual a situação.
          Foi então que Suzana reparou no rastro de sangue que tinha no chão e decidiu virar-se e esconder a cabeça entre os joelhos.
          -Ai Deus, por que fui sair de casa hoje? Eu poderia ter ficado lendo meus mangás, mas não, hoje a vida decidiu conspirar contra mim.
          -Relaxa, Suzaninha – a voz suave de Will fazia seu cérebro explodir, como se ele não tivesse acabado de matar um ser vivo!
          -Cara, a gente precisa tirar o cachorro do meio da pista, sabe, senão pode ser periogoso e tal – disse Pedro enfiando a cabeça pela janela do carro.
          -Cara, não! A gente tem que enterrar ele. Ele pode ser o cachorro de alguém! Se meu cachorro morresse por algum infeliz desgraçado que atropelou ele no meio da estrada, eu gostaria que ao menos fosse enterrado – Bob estava visivelmente chateado com o ocorrido e lançou um olhar furioso a Will.
          -Putz, cara, já é... enrola o bixo nesse tapetinho aqui que a gente arranja um lugar daora pra enterrar ele.
          -Peraí! – Suzana interviu – vocês estão dizendo que vão levar um cachorro morto no carro?
          -No porta-malas – Bob respondeu.
          -Ou seja, no carro.
          -Ah, para de ser mulherzinha.
          Dez minutos depois, Suzana estava viajando com um cachorro atropelado nas suas costas e tinha quase certeza que o pelo do rabo dele fazia cócegas na sua nuca, mas talvez fosse só impressão.
          -Uma vez eu tive um cachorro, mas ele morreu de câncer – disse um dos caras que Suzana não se lembrava o nome.
          -Que triste, meu – disse o segundo cara anônimo.
          -Eu sei que por aqui tem tipo um lugar, um cemitério de animais, acho que a gente podia enterrar ele lá.
          -Pode crer, eu lembro desse lugar, eu acho que fica nessa direção – disse Will enquanto girava o carro noventa graus à direita e entrava no meio da vegetação. Suzana sentiu seu coração subir até a boca.
          -Gente, isso aqui não tem cara de rua, de estrada, de trilha, nem nada. Vocês sabem que a gente tá no meio do mato?
          -Suzaninha, confia em mim – Will sorriu pelo retrovisor. Ela teve a sensação de que estava sendo enganada esse tempo todo, e que eles nem sabiam quem era a Juno, e só tinham inventado que conheciam ela a fim de arrastá-la para uma armadilha.
          -Pedro, eles estão tentando matar a gente? Me diz agora ou nunca, por favor – ela sussurrou para o garoto, que nem era assim tão seu amigo.
          Ele riu e afagou as próprias pernas, um pouco nervoso, o que fez Suzana querer chorar de desespero.
          -Eu acho que é por alí – disse Will apontando para algum lugar a sua direita e um segundo depois gritou um WOAH e freou o carro com tudo.
          -Puta que pariu, Will! Não basta matar um cachorro, você ainda quer matar todo mundo?
          Todos perceberam a vala enorme que havia na frente deles, e por centímetros eles não ficaram entalados alí, e então, teriam morrido ali, no meio do nada, de denutrição ou então comendo uns aos outros por causa do desespero, pensou Suzana.
          -Na melhor das hipóteses, já temos um túmulo para o cãozinho – Suzana disse, na esperança de que todos concordassem com a ideia, mas foi confrontada com o olhar terrível de Bob, o super amigo dos animais. Não, tudo bem. Suzana também amava os animais, mas ela amava ainda mais a própria vida.
          -Ah, foda-se, agora a gente vai andando - Bob saiu do carro e abriu o porta-malas, e depois ouviram o barulho de algo caindo – ai caralho, deixei ele cair.
          Todos correram pra fora para ajudá-lo. Suzana não conseguia parar de pensar em como eles eram idiotas. Ela saiu do carro e viu dois deles tentando enrolar o cachorro de volta, mas hora uma pata ficava pra fora, hora a cabeça.
          -Puuuutz - gemeu o anônimo numero um - meu tênis novo...
          -Puta merda, é só um pouquinho de sangue! - gritou Bob, que ficou tão nervoso que pegou o cachorro de qualquer jeito no colo, se sujando inteiro.
          -Mas é da Nike...
          Suzana podia ver a cabeça do cachorro preto pendendo para fora do embrulho, com a lingua pra fora, balançando enquanto Bob caminhava por entre as raízes de árvore no chão, e aquilo a incomodou de verdade, mas não queria ficar sozinha no carro então os acompanhou pra onde quer que fossem.
          Andaram por cerca de vinte minutos, até que Bob, já muito desconfortável com o peso, largou o embrulho no chão e disse:
          -Preciso mijar.
          Ele andou além de umas árvores até que não podia ser mais visto, os dois anônimos andaram em direções opostas, aproveitando a pausa para se aliviarem também. Pedro e Suzana se entreolharam.
          -Não me deixe aqui sozinha, por favor - ela pediu, e ele percebeu o terror escondido em sua voz - tá começando a escurecer...
          Pedro tirou a jaqueta e colocou no chão para que pudessem se sentar sem sujar a roupa. Ficaram sentados por pelo menos dez minutos, Suzana com o olhar fixo sobre o cachorro.
          -Não acredito em como tudo isso deu errado de forma astronômica - ela falou.
          -Não sei nem como me desculpar por ter te arrastado para esse rolê... - ele parecia realmente arrependido - eu deixo você me bater, se quiser. Pode bater com força - ele deu uns tapinhas no rosto, oferecendo a face.
          Ela apenas fez que não com a cabeça, ainda fitando hipnoticamente o ser ensanguentado estendido a sua frente.
          -Caramba, onde será que eles se meteram? - Pedro procurou por eles a sua volta, mas não ouvia mais nada além de suas respirações.
          -Pedro, você viu isso?
          -Isso o que?
          Suzana apontou para o cachorro.
          -Pedro, eu juro que vi o olho dele se mexer, aimeudeus.
          -Não é possível, ele tava morto quando a gente chegou lá na pista...
          Então pedro percebeu que uma parte do tapete que o encobria se mexeu ligeiramente, e quando focou na cabeça, ele viu: o olho se mexeu e agora os fitava.
          -Ele tava quão morto??? - ela gritou, a voz ficando fina.
          Então o cachorro deu um latido e seu corpo se contorceu, livrando-se do tapete, e ficando em pé. Só podiam ver o branco de seus dentes, rosnando para eles.
          -PUTA MERDA VAMO CAIR FORA DAQUI - Pedro gritou, pegando Suzana pelo braço.
          Só tiveram tempo de se levantar e sair correndo com um latido que ficava cada vez mais evidente. Tiveram a impressão de que o cachorro os estava seguindo, porque latia cada vez mais alto e com mais ferocidade. Correram por entre as árvores, tropeçando em galhos e raízes de árvores, quase às cegas. Quando chegaram a um riacho, tiveram certeza de que estavam indo na direção errada e estavam completamente perdidos, porque não haviam passado por nenhum riacho na ida. Pedro parou bem na borda, e viu um vulto passar ao seu lado: era Suzana que havia se jogado e agora estava dentro da água, que ia até as coxas.
          -Vamos, não é fundo! - ela gritou, estendendo a mão. Ainda podiam ouvir os latidos, mesmo que distantes, mas isso foi o suficiente para que ele pulasse.
          Andaram até o outro lado, e continuaram correndo, agora de mãos dadas, com Suzana tomando a frente.
          -Eu acho que... acho que reconheço esse lugar - ela disse, olhando a sua volta, já não corriam, apenas andavam rápido - acho que é por alí!
          Alguma coisa voou na direção deles, atrapalhando a sua visão, Suzana apenas teve o reflexo de dar um tapão naquela criatura, fazendo ela cair no chão alguns metros a frente deles, se contorcendo um pouco, então ela foi até ele e pisou em cima algumas vezes, fazendo-o parar de se mexer.
          -Cara, eu acho que você acabou de matar um morcego - Pedro constatou, meio surpreso, ainda sendo puxado por Suzana pelas mãos - é sério, morcegos também são criaturas de Deus, e você acabou de matar um deles - ele disse, brincando.
          -Pedro - ela parou e estendeu o indicador na direção dele - aquele cachorro lá não era criatura de Deus, não! E para todos os efeitos, o morcego era letal e estava prestes a nos matar.
          Pedro apenas riu nervosamente e a seguiu. Encontraram o carro depois de alguns minutos e entraram correndo no banco de trás. Bateram a porta com força e a trancaram, a respiração a mil, e a sensação latente do coração que chegava até a boca do estômago.
Suzana só percebeu depois os arranhões nos braços e pernas. Pedro a pegou pelas mãos e a averiguou cuidadosamente.
          -Você se machucou em algum lugar?
          Ela fez que não com a cabeça, mas respirou fundo para tentar se acalmar.
          -O que diabos foi tudo isso? -perguntou.
          -Eu não sei, o Bob tinha dito que o cachorro estava morto, mas pensando bem, não vi ele checando a respiração nem nada... - Pedro estava pensativo, revendo a cena em seus pensamentos - afe, como somos idiotas! Ele nem devia estar morto, ainda bem que não enterramos ele, jesus...
          Suzana afundou no banco e olhou pela janela. Já estava tão escuro entre as árvores que não podia enxergar quase nada além de uns dez metros.

             Continua!!! 


Leia a segunda parte aqui.




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