terça-feira, 24 de julho de 2012

Isto é um mangá?

Muitas coisas me levaram a escrever o post de hoje. Talvez esta seja uma forma de me elucidar quanto a questões que às vezes me frustram. Então, enquanto lia o livro do Scott McCloud, "Desenhando Quadrinhos" (e recomendo, inclusive, TODOS os livros desse autor) cheguei no capítulo "Desvendando os mangás" que faz uma análise das características narrativas do mangá, que se distingue dos quadrinhos americanos, por exemplo, e vai muito além do traço.

E então, vamos a pergunta:

Vidas Imperfeitas é um mangá?

Devo dizer, eu já ouvi de tudo. Tudo mesmo. Já ouvi, em eventos de anime, pessoas que folhearam os fanzines dizer: "Legal, mas não curto muito esse estilo.. prefiro algo como Naruto". Bem, eu nunca julguei estas pessoas, porque se um estilo visual te agrada e outro não, não há muito o que podemos fazer sobre isso. Esteticamente, o Vidas não é um mangá convencional. Existem muitas características que o lembram, porque eu desenhei mangá durante muito tempo, e meu traço é uma mistura de tudo que eu acho legal. Mas também já ouvi quadrinistas me dizerem que o que eu faço é mangá. Eu nunca soube dizer realmente o que era, porque estas pessoas estavam analisando minha obra esteticamente, e geralmente de uma forma superficial.

Você, que já leu mangá e comics americanos já deve ter reparado que existem muitas diferenças entre eles. Os comics tem edições de 30 páginas mais ou menos, e os mangás vêm em tankobons de 180 páginas. E não é pra menos, o que é resolvido num comic em 1 ou duas páginas, pode se desenrolar em 30, 40 páginas de um mangá, porque sua narrativa preza o envolvimento do autor. Os quadros cheios de detalhes, closes, cenas com transições lentas de um quadro para outro... tudo isso prende o leitor no que está acontecendo, faz ele sentir a mesma angústia, a mesma tensão que os personagens estão sentindo na história. Segundo McCloud, este recurso narrativo foi o que alimentou o sucesso maciço dos mangás, tanto no Japão quanto no ocidente.

Não, o mangá não é apenas estética. Você pode desenhar no estilo mangá, mas não estará fazendo necessariamente um mangá. É preciso ir além do superficial, porque o mangá oferece recursos incríveis de narrativa, que, se usados na maneira certa, irão atingir o leitor da forma que o autor espera.

Quando penso por este lado, o que eu faço é definitivamente mangá. Posso não ter condições de criar uma edição de 180 páginas, mas a forma como desenvolvo um roteiro e sua narrativa está muito mais próximo do mangá que qualquer outra coisa. Gosto e uso muitos dos recursos de mangá, para potencializar a minha mensagem, para que os leitores possam mergulhar na história, se identificarem com os personagens, sentirem que aquilo poderia ser... real.


Mas ainda existe preconceito...


Já ouvi comentários sobre o mangá de uma forma pejorativa, como se fosse só uma 'onda' de sucesso. Mas quantas destas pessoas já procurou conhecer mais sobre este 'gênero' ao invés de dar razão às mídias e aceitar sem criticar as opiniões alheias? É um pouco triste quando os próprios desenhistas de mangá precisam se defender, como se aceitassem que desenhar mangá fosse mesmo vergonhoso. Não há nada de vergonhoso em se escolher um recurso à outro, porque ele atende melhor as suas necessidades como quadrinista. Mas realmente não dá pra entender porque, de alguma forma, os mercados editoriais e publicitários rejeitam o mangá, quando o estilo americano ou europeu são tão bem aceitos no Brasil. Temos ainda o bom exemplo (com algumas ressalvas) da Turma da Monica jovem, que incorporou o mangá porque percebeu que a demanda existe e que muita gente consome mangá. O preconceito foi algo que surgiu aqui dentro e ainda não se desmistificou.


Mas ainda sonho com o dia em que desenhar mangá não vai ser só desenhar mangá, mas também vai ser desenhar histórias em quadrinhos. Que os mangakas aqui no Brasil também serão visto como quadrinistas. Quando existe esta distinção entre uma coisa e outra, a porta para inferiorizações e preconceito sempre estará aberta. Eu já disse no editorial de uma das edições do Vidas, que pra mim quadrinhos são apenas um meio. Para mim, quadrinho é suporte. Como todo suporte, ele demanda uma adaptação, ele precisa do estudo apurado da técnica. Mas quadrinho também é uma linguagem, complexa como só ela pode ser. Não é literatura, nem ilustração; é a união de ambos. É por essas e outras que tantos autores tentaram definí-la, incluí-la em pacotes pré-definidos de caracterização. Apesar de ser tão difícil classificar, todos sabem o que é, de alguma forma.


Quem lê quadrinhos?


O mercado está mudando, eu sei. Hoje existem editoras especializadas em mangá, que estão em busca de novos autores e histórias. Isso é bom, mas não vejo uma mudança substancial no modo que os brasileiros em geral enxergam o mangá ou as HQs. Parece coisa de criança, de adolescente, de nerds ou geeks. As HQs da Livraria Cultura se mudaram pra loja Geeks, lá na Paulista. Por um lado, a centralização de gêneros parecidos pode facilitar a vida dos consumidores assíduos, mas uma porta se fecha para aquele que, passando pela Livraria Cultura se depara com uma publicação de quadrinhos e fica curioso de alguma forma. Talvez eu esteja pensando demais, talvez este post já esteja muito longo. Mas eu queria inserir mais uma sementinha na mente de vocês, para que pensassem um pouco...

Mesmo que isto não seja mangá, ou seja tão mangá que te deixa enjoado... Bem, esta humilde HQ será publicada por uma editora em breve em sua edição de luxo. Não está confirmado ainda. Mas como disse no começo deste post, às vezes preciso lembrar para mim mesma que podemos ir muito longe quando acreditamos de fato naquilo que fazemos.
Comentários
9 Comentários

9 comentários:

  1. Já li em um site uma resenha do seu fanzine como estilo americano e não mangá.Mas sinceramente eu o vejo como algo original.E o defino como mangá com leitura muito mais profunda do que muitos quadrinhos que eu já li.Seu fanzine a meu ver apresenta uma estrutura própria de narrativa e estética.

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    1. Acho que esse é um esforço em categorizar o que é produzido, então fazendo uma análise profunda, eu diria que está muito proximo do mangá, apesar de esteticamente não ser tanto. Mas entendo sua colocação, e obrigada pelo elogio ^^

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  2. Concordo com o comentário do Benites, tb vejo o seu trabalho como algo original, com um estilo entre o mangá e o americano, e também concordando com vc, muito mais próximo do mangá, afinal, como comentei em outra ocasião, todos os elementos, além da narrativa em si, estão lá; a influência é clara e eu considero isso extremamente interessante no seu trabalho! Qto à Livraria Cultura, lamentável, um grande erro! Primeiro q ela prejudica a si mesma, pq dois pontos de venda são melhores q um, segundo, q se o cliente entrar procurando quadrinhos, vai sair insastisfeito e terceiro, q infelizmente, ela não tem uma visão do mercado q ela atua (além de prejudicar esse mercado). Aposto q os livros de quadrinhos podem vender mais q os livros de arquitetura, mas estes últimos, com certeza estão lá! Demais, estarei esperando pela confirmação do lançamento pela editora, porque comprarei a versão de luxo, com certeza (além de já ter a mini)! Amo Vidas Imperfeitas e desejo sucesso!!! - Jefferson Leite

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  3. Acho q seu traço é único e gosto dele do jeito que é. Eu gosto muito de mangá e hq... se vc mistura os dois então talvez tenha criado um novo estilo de desenho. Hihi... para mim isso explicaria tudo. Tenho certeza que você vai ter muito sucesso e mesmo que haja preconceito ainda vai se sair bem. Kisses... ^~

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  4. Concordo totalmente com a MellChan. Ele tem a mistura dos dois estilos, e acrescentando a narrativa que só você sabe fazer o tornou uma experiencia unica e agradavel.

    Sobre a editora, independente de qual será, espero que deem um ótimo tratamento e tenha uma boa distribuidora (que passe aqui no Espirito Santo) e que venda na Liga HQ.

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  5. DENIS EVARISTO DE SOUSA SILVA
    email: gordo-desenhista@hotmail.com

    Mary fez algo bem nacional. Apesar de não estar diretamente especificando o cenario em si, mas Vidas Imperfeitas passa algo brasileiro mesmo e isso fez sua obra se tornar algo único, seja no traço ou na historia em si. Não sou do tipo que digo: "isso não é mangá, só mangá presta por causa da narrativa", eu leio uma historia esperando que ele me cative, que provoque reações emocionais e foi o que Vidas Imperfeitas fez.

    Acredito que se todos os autores fizessem suas historias mais centradas na nossa "área" com base em nossa cultura, teriamos um certo avanço na area do mangá brasileiro.

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  6. Criamos um estilo nosso, um estilo "abrasileirado" onde mesclamos tudo que nos apetece, então devemos dizer que desenhamos mangá, mas não é mangá, desenhamos no estilo comics, mas não é comics, enfim, quando me perguntam que estilo desenho, eu digo "meu estilo é Gibi" é um termo esquecido, mas gosto dele.

    terminando, não importa o rotulo, importa o que queremos passar com nossas historias e se funciona no estilo que desenvolvemos, aí é só alegria...

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  7. acho que seu estilo mescla os dois estilos e e lindo

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  8. Excelente Post.
    Concordo com cada palavra e vírgula. Parabéns pela edição de Luxo, terei o maior prazer de tê-la.

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