quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Os esteriótipos em romances

(atenção: pode conter spoilers leves para aqueles que ainda não leram o fanzine)

Bem, eu estava lendo alguns blogs feministas quando me lembrei de algumas coisas importantes que me levaram a escrever o Vidas. Eu não sou exatamente feminista - diga-se de passagem - mas depende muito do que isso quer dizer. O machismo na nossa sociedade é algo que me incomoda muito, são aquelas [falsas] morais disseminadas pelas famílias, pelos políticos, pela mídia, aquelas coisas que me deixam horrorizada por ainda acontecerem.. em pleno século XXI! (Lembro de ter lido sobre uma bolsa-estupro que o governo queria aprovar, que pagava um salário mínimo para a mulher, vítima de estupro, que decidisse não abortar. Juro que surtei quando li isso). Mas bem, esse não é o ponto. O que estava querendo dizer é que acredito tanto na liberdade do ser humano (homem E mulher) que precisava criar uma personagem que fugisse de todos (ou pelo menos da maioria) os esteriótipos cultivados em romances no geral. 

A Juno nasceu assim. Ela, como a maioria das pessoas, também sofreu uma pressão familiar de atitudes que ela deveria ter, de uma sociedade que ela deveria se encaixar. E poxa vida... quantas pessoas já não se sentiram assim? Ela era a 'menina-moleque', que se envolvia em brigas 'como se fosse menino', porque afinal, é tão feio menina brigar. Menina não pode. Menina também não pode falar palavrão, não pode se dar ao luxo de fazer o que bem entende... Claro que muitas dessas coisas também se estende ao mundo masculino.

A verdade é que a Juno não está nem aí se ela é garota ou não, ela respeita seus próprios impulsos e desejos, independente do que a sociedade a impõe. Isso não faz dela menos feminina, menos capaz, menos plena. Difícil é ter que aguentar as consequências das suas atitudes, a impressão que causa nas pessoas, os apelidos, a fama. É sobre isso que é a história, né? Bom, não é bem assim. Ela não é a garota perfeita. Apesar de incorporar muitas das atitudes que eu mesma gostaria de ter, ela tem suas falhas, como qualquer outra pessoa. Talvez a maior delas seja acreditar no mundo que cria em sua cabeça, ignorando outras possíveis leituras da realidade.

Outro esteriótipo do qual queria fugir era o da garota cujo primeiro amor era despertado durante a narrativa. A garota pura e viriginal, que finalmente se vê preparada para se entregar ao seu grande amor. Veja bem, pra TUDO se existe uma primeira vez. Mas essa é uma fórmula passada, que só funciona quando muito bem elaborada. Eu particularmente me irrito, porque a vida não é exatamente assim. Temos o primeiro namorado, o segundo, o terceiro... isso não faz dos outros menos importantes. Diego é o primeiro namorado da Juno, um cara que de longe seria o namorado perfeito, mas mesmo assim, ele desperta a atenção e curiosidade da pequena Juno. Eles se separam facilmente, sem grandes 'traumas', e durante um tempo (isto está em off) Juno se relaciona com outros caras casualmente até encontrar Daniel. A síndrome do 'príncipe encantado' aqui é encarado como uma mutação. Aos olhos da Juno, o Daniel era assim... perfeito. Primeiro, ganhou dela na queda de braço, tinha um olhar que a hipnotizava, se importava com ela, a confortava, ouvia sobre seus problemas... mas o que ela sabia sobre ele? Era uma relação um pouco mais unilateral. Ele gostava de se doar, mas a Juno nunca buscou saber muito sobre ele. Para ela bastava. A situação se complica nesse ponto. Mas até esse momento, ambos são as pessoas mais significativas na vida um do outro até esse momento.

Tento sempre fugir de esteriótipos irritantes, como aquela clássica do/a mocinho/a que tem um segredo no começo, que decide esconder, mas perto do final, quando finalmente estão juntos, o outro descobre e eles brigam. Mas calma! No final, tudo se acerta e eles vivem felizes para sempre. Quantas e quantas vezes isso se repete nos romances quase como uma fórmula exata! É difícil fugir dos clichês. Difícil mesmo. É duro criar uma narrativa envolvente e que prenda o leitor (e o deixe tão irritado) como um mal entendido que se arrasta e se resolve no final. É tão difícil que mal-entendidos aparecem no fanzine (o fatídico poema do Daniel que cai em mãos erradas...) mas eu juro que tentei não transformar isso num empecilho para a boa continuidade da série. Odeio quando empecilhos medíocres impedem que os personagens façam aquilo que desejam, quase como se não tivessem controle sobre suas próprias vidas e nunca fossem capazes de conversar ou explicar a situação. Peraí, se eu posso explicar, porque não irei explicar?? E se eu confio numa pessoa, porque não irei ouvir sua explicação? E porque os personagens acreditam mais nos 'antagonistas' se eles tem uma relação mais forte e de mais confiança com a pessoa possivelmente acusada (seu amado)?? Juro que não consigo entender! Estas coisas apenas transformam os personagens em seres idiotas e sem coerência alguma, que sucumbem facilmente a outras sem uma explicação plausível. Sério, se quiser estragar uma história ou me fazer odiá-la é tornar os personagens em fracos apenas para criar o tal 'mal-entendido '(que será solucionado no final!). Por favor, uma trama não se resume a isso!

Eu me excedi, eu sei. Talvez esteja sendo radical. Algumas histórias funcionam nesse esquema, mas é preciso que a trama seja inteligente e nos faça acreditar que isso seria realmente possível. Talvez eu me irrite tanto porque leio muitos romances. Fico até emocionada quando estes clichês são quebrados e uma nova solução é dada para estes problemas! É nesse sentido que me esforço em escrever romances. Não procuro a emoção da primeira vez, ou a glória de ter sobrevivido a um mal entendido. Busco a realidade das nossas vidas, a complexidade das emoções humanas. Eu quero resoluções que estejam no âmago da nossa existência e não no plano maléfico de um antagonista. Somos todos protagonistas das nossas vidas e personagens secundários da vida dos outros. Muitas vezes somos também os antagonistas.

Enfim, estes são apenas alguns dos esteriótipos que decidi tratar aqui no blog, e sei que existem outros. Sintam-se a vontade de comentar, dar sua opinião, inserir outros esteriótipos. Quem sabe isso não me inspire a escrever mais posts sobre como penso uma história e o que busco ao escrevê-las.

Obrigada aos que leram até aqui. Sei que hoje o post foi longo, hehe.
Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. A narrativa dos filmes, novelas, livros realmente parecem que seguem uma formula unica, apresentam os personagens, o cenário, depois criam um conflito que muda a situação, mas que é revertida no final. Acho que seguir essa linha não estraga a história, afinal o que importa é a viagem, não o destino. Cabe ao talento do escritor fazer de um padrão conhecido algo interessante. Agora quando você quebra os esteriótipos, ou a "receita" de criação, você se arrisca a criar algo novo, e se arrisca a não ter uma boa aceitação de todos. No caso da Juno, a personalidade e as atitudes fora dos padrões, a tornaram uma personagem marcante..E deu certo né?

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  2. Lendo isso tudo me vem de cara um título..Peach Girl! Táquipariu viu, a história é ótima, mas é cada problema ABSURDAMENTE BABACA! Existem tantas histórias boas, mas ai aparece um problema e parece que todos os personagens viram umas amebas desprovidas de inteligência e praticidade... Eu me irrito tb viu!

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  3. Ola Mary, aqui é o Zé do ScanManiacs, claro que aceito uma parceria com seu site, virei um assíduo leitor de suas revistas, e tenho a sua opinião, o que é bom deve ser compartilhado, já add seu link nas postagens no blog como você me pediu, se você quiser usar os links que eu disponibilizo como links alternativos aqui fique a vontade (re-up é um vício da minha época de uploader nos fóruns de download da vida, hehehe, nao leve a mal). Gosto muito de sua obra, até por isso a compartilho com os visitantes de meu blog, os quais, pela quantidade de downs, também parecem gostar. Um abraço e parabéns pela iniciativa, qualquer coisa tamos ai, só deixar uma mensagem!!!

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  4. Os estereótipos em romances não passam de clichês, afinal, por que inovar se já temos uma fórmula que funciona? Será por falta de criatividade ou por medo de arriscar? Por isso digo que Shakespeare é o maior inovador de todos os tempos, o cara matou Romeu e Julieta de forma trágica e, principalmente, criativa no final, sem medo de arriscar (acho q ele ainda não tinha assistido às comédias românticas de Hollywood). Gosto muito de Vidas Imperfeitas e é por isso q espero q o Daniel morra no final, huahuaha!!! ;P

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